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PROSAS VADIAS

PROSAS VADIAS

14.Abr.10

da crise do catolicismo

Rodeado pelo escândalo, o representante máximo do Estado do Vaticano vem a Portugal. Aproveitemos a folga decretada, esperando que os privados sigam o mesmo exemplo do "patrão" Estado, para reflectir sobre a questão. Embora esta liberdade seja baseada num princípio absurdo, pois reconheço que a maioria, dita confessionalmente como católica, pelos seus representantes locais, seja, antes de tudo, tida substancialmente como não praticante, profundamente pagã, mística e milagreira. A igreja serve como substituto para o que não consegue explicar ou que não tem explicação. Serve-se da Igreja para esconjurar o irracional, fonte do simbólico e sobrenatural que, de facto, nunca abandonou. Não contesto, no entanto, embora o absurdo, dado que compreendo a necessidade de, em termos diplomáticos e políticos, colocar alguma flexão nas relações entre os dois Estados. A recente implementação no ordenamento jurídico português do casamento entre pessoas do mesmo sexo criou alguns anticorpos ainda ocultos entre as elites do catolicismo nacional. Sei, contudo, que a República se afirma laica, dai continuar com muitas dúvidas sobre o laicismo do Estado português e nalgumas cúpulas do actual poder político. A Igreja Católica procura disfarçar, contra-argumentando de forma absurda, os seus problemas internos e a cíclica, talvez a mais grave do último século, crise de identidade. Contudo os tempos são outros, no próprio interior do Vaticano, e no seu próprio interesse, o avolumar dos casos de pedofilia e a conduta face ao escandalo de algumas das suas figuras de proa está a começar a provocar um profundo mal estar, quer entre fiéis, quer entre outras figuras importantes do catolicismo europeu. Penso esta viagem como último recurso, apelo ao "milagre" de Fátima, embora perante os factos conhecidos esta pouco lhes possa valer. Em causa estão declarações que uma mãe/pai não consegue entender. Sobretudo quando estas são lidas à luz da mente perversa, e eminência parda, que dá pelo nome de cardeal Bertone.

14.Abr.10

minoria silenciosa

António de Spínola, é figura militar do "Estado Novo", tal como Humberto Delgado,  embora o percurso políticos  destas duas personalidades tenha enveredado por caminhos opostos em relação ao confronto com o poder político do regime. Spínola desde sempre se apoia e movimenta no interior do regime a que o 25 de Abril procura pôr cobro. O aparecimento do então general à frente dos elementos da primeira Junta de Salvação Nacional  demonstra, na época, a subserviência à hierarquia militar a que se sujeitaram boa parte dos elementos que promovem a revolução. Sem referências pessoais genéricamente conhecidas entre a população portuguesa, estes acabam por entregar o poder de representação aos "velhos" militares, que assim assumem o controlo político e militar da Revolução.  Equilíbrios políticos à parte, a denominada Junta de Salvação Nacional, contou então, em boa parte, com forte presença de alguns aspirantes a substitutos (Silvério Marques, Diogo Neto, Galvão de Melo) da célebre "Brigada do Reumático".  A questão da salvação da Pátria para António de Spínola, baseava-se em itém único: a defesa acérrima da ilegalização do Partido Comunista, em Portugal. Convenha-se que, apesar do peso daquele partido na oposição ao regime de António de Oliveira Salazar, este partido, como seria demonstrado nas primeiras eleições livres e democráticas, não tinha o peso político que o futuro marechal conservador e reaccionário lhe atribuía. Convém, igualmente, realçar que os "papões e obsessões" do general não serviam sequer como programa político para um país que emergia de uma ditadura, nem podia ser laboratório para uma "nova Guiné", antigo território colonial onde o, para alguns hoje saudoso marechal, colocou em prática uma pessoal interpretação política de neo-colonialismo desfasado e inconsequente. Tentativa vã e ineficaz, reprodutora de boa parte de traumas da guerra que sobrevivem. Observando e a analisando a vida pessoal e militar de António de Spinola, agora relembrado, pudemos encontrar as profundas razões porque alguns lhe atribuem hoje a importância que nunca teve - um profundo conservadorismo e uma exacerbada tendência para o autoritarismo. Historicamente, Spínola, foi literalmente alguém que quis inverter um dos sentidos da revolução, recorrendo para tal a uma tentativa de golpe militar, o "28 de Setembro", vulgarmente associado a uma manifestação  conhecida como da "Maioria Silenciosa", promovida então por uma elite ultra conservadora,  que preconiza e prepara um golpe militar. Na tentativa  de impor uma ideia pessoal não sufragada, fórmula que convenhamos não seria bem aceite, se tal sentimento coexistisse hoje, pelos actuais detentores de cargos políticos que lhe dispensaram a honra de rememorarem a passagem do centenário do seu nascimento, como resultado o general abandona o cargo de Presidente da República e literalmente foge do país. Não é figura de Portugal, a não ser na prateleira da bizarria dos comportamentos autoritários e de militarismo já então claramente ultrapassado. Era um títere, a que alguns agora pretendem dar dimensão e profundidade histórica e cujo "tique" da utilização do móculo, como adereço visual, sabemos muito bem de onde veio. Pode destroçar, senhor marechal.

 

Fernado Campos deixa no seu blogue outra visão sobre o mesmo assunto só que esta acompanhada pela mestria da sua arte na caricatura.