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PROSAS VADIAS

PROSAS VADIAS

11.Nov.09

Um muro especial

 

 

Erguem-se muros em volta do corpo, assim escrevia o poeta. Nasci em 1961 precisamente. Descobri o muro em 1974. Deixem-me aqui escrever que sempre fui comunista desde que me conheço. Embora não seja parte integrante, nem me inclua, nem pretenda vir a fazer parte de nenhum partido com esse nome. Sou comunista por utopia. Pormenor que talvez tenha que ver com a minha essência utópica e voluntarista. Porque o comunismo faz parte disso mesmo: da utopia humana. Nem creio, não acredito, como muitos outros a quem fizeram crer, que o comunismo tenha alguma vez existido ou exista seja onde for. Compreendo que a essência do humano é incapaz de conseguir atingir a perfeição. Somos a base de sociedades que tem a sua essência no célebre "Contrato Social" de Thomas Hobbes, assente na eterna dualidade: poder e logro (ou se quisermos calculismo). Facto que implica uma visão distorcida da moralidade (ou da realidade se quisermos) concebida através ou por estranhos. Aceitamos, deste modo, determinadas limitações à nossa própria liberdade em troca da segurança. Poderão dizer que de outro modo não poderia ser. Aceito. Mas se atentarmos nas bases desse contrato social estas permitem observar, de forma profunda, o que é a natureza humana. Olho assim para os muros como uma consequência do humano e não como uma consequência de determinada ideologia. Como historiador não posso deixar de me interessar pela ex-R.D.A, facto que resulta da perspectiva conjuntural que implica perceber as consequências (políticas sociais e económicas) do desaparecimento de um país. Por outro, e enquanto tal, compreendo a onda nostálgica que perpassa entre muitos cidadãos da ex-R.D.A. A beleza que podemos encontrar no filme "Good Bye Lenin" representa isso mesmo: a nostalgia de um mundo, complexo, que desaparece, de forma brutal, debaixo dos nossos olhos, ditando o fim de uma guerra a que chamaram "fria", embora resultasse da fusão atómica. Sentimento esse, provavelmente de cariz nacionalista, que terminará com o desaparecimento das gerações que sob ele viveram e nasceram. Por outro lado enquanto pessoa não nutro nenhuma simpatia pelo antigo regime político da Alemanha Oriental, sendo precisamente a mesma que nutro pelo da Ocidental. Mas um pouco desta pretensa filosofia, como alguns lhe podem chamar, não mancha a necessidade do fim ou da queda ou ainda (se quiserem) do "empurranço" daquele muro. Outros, entretanto, foram sendo erguidos (o muro em Cuba, Nicósia-Chipre, Botswana-Zinbabwe, India-Paquistão, Israel-Palestina). Dessa percepção resulta a crença de que erguer muros ou derruba-los é uma questão semântica quando reflicto sobre os milhões de humanos anónimos que sofrem (ou sofreram) as consequências da construção ou derrube de muros. Sejam estes quais forem. Após a queda do Muro de Berlim surgiram mais 18 milhões de novos consumidores. O que permite pensar a sua queda sob outros pontos de vista igualmente interessantes.