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PROSAS VADIAS

PROSAS VADIAS

29.Mar.08

Portugal: a releitura do outro.

O relato de viagem, do estrangeiro, sobre um qualquer lugar visitado, estabelecia a visão do outro sobre o autóctone. As recordações e memórias, necessariamente confrontadas com uma realidade que é, à partida, desconhecida, face a um desconforto  provocado pela diferença linguística,  era Pessoa que afirmava que a língua é a minha Pátria,  de usos e costumes diferenciados, implicam, quase sempre, uma leitura que ornamentava uma superioridade cultural do viajante, aquando da passagem da descrição das memórias da viagem realizada ao relato escrito. Realidade bastamente encontrada no memorialismo viajante do século XIX,  século por excelência da descoberta do prazer da viagem, da viagem cultural como ponto de partida possível para o enriquecimento individual. A prática do memorialismo de viagem contrasta entre os diferentes países europeus, a sua prática consubstancia-se na difusão do Romantismo na Europa, e redescobre a actividade da escrita memorialista sobre a viagem.

O problema sobre o qual se reflecte é sobre a nossa recusa do olhar do outro sobre nós, quando nele não nos queremos reconhecer, nesse olhar outro, do estrangeiro. Invariavelmente Portugal  que sempre se mostrou reverenciador de outras culturas, de esses outros olhares, potenciados como superiores, embora, e de novo invariavelmente, lhes recusemos as visões particulares sobre nós. Este olhar, de certo modo ocidentalizado, não deixa de provocar as mesmas reacções que poderíamos encontrar entre as elites cultas do "nosso" século XIX. Seremos hoje capazes de nos olhar pelo olhar do outro?

O espelho do seu olhar não nos reflecte? Simplesmente o que gostaríamos de poder ocultar.

 

nota de rodapé: observamos a colagem do epíteto de  herói ao personagem que a reportagem distingue. Não é isso que aqui está em causa. Nem esse aspecto nos interessa aqui, embora a opinião e acção desenvolvida ajude, de certa forma,  a consubstanciar a imagem. O interesse centra-se na visão jornalística sobre nós. Essa outra visão de nós. A imagem que de nós transparece. Ou deixamos que transpareça. Ou queremos.