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PROSAS VADIAS

PROSAS VADIAS

22.Mar.08

Autoridade, autoritarismo e agressividade

   

    O assunto parece-me banal. Não creio que tenha assim tanto de novidade. A questão da autoridade. De forma lenta e furtiva ele já à muito começara a tomar forma. A "geração rasca" começava a despontar e com ela as clivagens começavam a acentuar-se cada vez mais. A autoridade impositiva começava a ser questionada. Embora este caso não ponha a nu uma questão de autoridade, como por ai se diz e escreve. Não, o que releva deste último caso é falta de capacidade de ambos os lados na prática do diálogo. De insuficiências pessoais ou deficiências, como queiram. Os professores muitas das vezes alcandorados num poder que não se encontra alicerçado numa prática competente, nem, por vezes, justo, desligam-se do real que circunda. Sublimam-se. 

    As opiniões que recolhi, ao longo deste dia, estão de acordo, quer com  um determinado estatuto socioprofissional, onde se distinguem os professores, quer  com a sensibilidade social de cada um, onde surgem as opiniões de pais. Ou de ambos. Manifesto a minha incredulidade perante a  mais recente "ola" em torno de um "tubo" colocado na rede. Nem mesmo este se pode considerar uma novidade. Andamos todos em torno de um tubo, acabando este por, aparentemente, nos centrifugar a opinião. Convém antes reflectir sobre o muito que já se falou sobre este assunto.

    Poderão dizer-me que nunca é demais. Respondo é demais, porque de muito se falar, estamos ainda no mesmo  ponto. Sei que muitas e desvairadas medidas, desde as repressivas às  persuasivas, das benevolentes ás radicais, que  foram sendo sucessivamente implementadas ao longo do tempo. Sei porque, desde sempre, fui aluno. Ainda hoje. 

    Pessoalmente  a carreira profissional de professor nunca foi considerada como sedutora. Talvez porque pense ser profissão à qual se deve associar paixão, não no sentido que outro lhe quis dar, mas verdadeira. Sem paixão não se consegue ser professor. Penso. Sei de muitos que o são porque, a vida,  assim correu. Por isso profissão dura. Sem paixão, profissão, como outra qualquer. Eu próprio conto pelas dedos de uma das mãos os grandes professores que tive até aos bancos da universidade. Ai tive grandes mestres.

    Recordo hoje e aqui o nome  de Maria Júlia Jaleco. Foi minha professora de Biologia na Escola Avelar Brotero , em Coimbra. Decorria o ano de 1979. Salvo erro. Se a memória não me falha. Era então aluno considerado rebelde. Rebelde. Rock. Niilista. Pouco dado a impositivas  regras morais, portanto. Misturava uma enorme capacidade cognitiva em conjunto com uma enorme capacidade destrutiva. Enfim o que se chamava então "um caso perdido".

    A Dr. Júlia Jaleco soube como desenvolver o lado positivo sobrepondo este  ao lado negativista. Domesticou uma bestialidade latente. Assunto para o qual o deficit de conhecimento por parte da classe era então quase de zero. Os professores não aprendiam (ou não aprendem) a lidar com alunos problemáticos. O mundo ainda é demasiado "cor-de-rosa".

    Dai que hoje ao deparar com o empolamento de mais um caso de indisciplina escolar este me tenha feito recordar o exemplo da Dr.ª Júlia Jaleco. Se alguém a conhecer, se alguém dela souber digam-lhe que o Carlos Freitas ainda se recorda. Como professora e como um ser humano que sabia lidar com os denominados alunos-problema de forma construtiva e não autoritária, conseguindo no limite fazer destes excelentes alunos. Chegar onde cheguei foi fruto dessa sua tenacidade particular e desinteressada em lidar com situações limite. Continuar e nunca desistir foi semente que deixou e deu frutos.

    Como ela muitos outros professores, que de certeza neste momento reflectem sobre mais este caso,  sobre os muitos casos idênticos a este, que de certeza sabem fazer, sabem lidar com o problema da indisciplina na sala de aula e com alunos problemáticos. É que sempre existiram grandes professores e alunos problemáticos. Que se fixe o axioma.  Abandonar ou discriminar estes alunos, atitudes mais usuais, nunca foi solução.

    A multiplicidade de experiências  a que tem sido sujeito o ensino implica a banalização deste e outros comportamentos mais ou menos agressivos entre partes que convivem entre as paredes da escola. Professores há que de forma anónima e anódina, acabam por desempenhar um papel importante no interior do sistema porque fazem e realizam. Mas o saber fazer ainda não é moeda corrente. Outros valores se levantam. No real, no mundo, luta-se pela sobrevivência, ascensão ou manutenção do "status". No fundo a escola espelha o mundo. Parte intrínseca dele. É assim preciso não esquecer que professores e alunos são traves mestras do sistema de ensino.

    Daqui a uns tempos, depois de passar a recente "ola", outra virá, de certeza. Até uma próxima. Esperemos que nunca chegue a ser tão violenta como os exemplos que nos chegam do outro lado do oceano. Esperemos que não. Até lá ponham em execução o muito que muitos já reflectiram sobre esta realidade. Deixemos os factos, passe-se à acção.

A foto foi retirada de Viajando por Angola. Onde, passados muitos anos, consegui "descobrir" e rever a minha professora de Coimbra. Eventualmente se alguém, que tenha conseguido ler este arrazoado até aqui, conhecer a Dr.ª Maria Júlia Jaleco, em Coimbra, agradecia que me contacta-se para o mail cfreitas1@sapo.pt . Obrigado.

    Adenda: Concretamente este assunto apenas serviu para desviar as atenções sobre assuntos mais actuais.  De tão velho, a questão da indisciplina, só pode ser ressuscitada para recentrar a discussão sobre aspectos periféricos, embora importantes noutro contexto que não o actual.