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PROSAS VADIAS

PROSAS VADIAS

18.Nov.07

Em seu redor vejo fontanários...

Coimbra, Av. Sá da Bandeira, Cumeada e Penitenciária. Edição Havaneza Central. Colecção Aurélio Diniz Marta.

O desafio maior para um autarca, neste caso presidente de Câmara Municipal, surge do confronto entre ordenamento e desenvolvimento da urbe. Coimbra, onde o passado vive paredes meias com o presente, cada vez mais envenenado, uma autarquia deve (devia) ter em conta essa estranha mistura entre ambos. Não sendo tarefa fácil, importa discernir motivos, caminhos, valências, interpretando-as no sentido do acordo. Esta questão não é de hoje. Relembro aqui, a traço rápido, a eterna questão desta Coimbra ensimesmada na colina. O crescimento urbano desenvolvido em redor do casco da Almedina, que obrigaria a um permanente "bota-abaixo" (não, não é nessa zona que em meados dos anos sessenta começou a ser derrubada e que ficaria durante anos abandonada, baptizada popularmente entretanto como o Bota-Abaixo) e consequente desaparecimento de alguns edifícios, cujo álibi, sempre e desde sempre reiterado, foi a pequenez e falta de espaço da zona baixa da cidade. Ponto assente, para desenvolver Coimbra haveria que demolir. Assim desaparecem a velha prisão, esse outro edifício que emoldurava a entrada da ponte na zona então nobre da Portagem. Poderíamos falar do desaparecimento do Largo do Trovão, durante o alteamento das margens do rio a sul do referido Largo. Mas quem sabe hoje onde ficou enterrado o Largo do Trovão? Parece assim um acordo impossível. Acordo inexistente de facto. Por falta de espaço. Sustentada no poder do mais forte sobre o mais fraco, na cidade tudo se alterou, tudo se modificou, poucas vezes para melhor. Um dia, essa pressa chegou igualmente à Alta coimbrã. Poucos (muito poucos) se levantaram, defensores da deslocalização dos novos edifícios (necessários) para zonas próximas da cidade. Terrenos periféricos, fora do hábito costumeiro de entender o que era então a cidade. Ficavam longe, muito longe, há cinquenta e poucos anos atrás. O tempo esse era de medo. Tempo de lambe-botas e subserviente ao poder maior. Hoje poderemos questionar - face á eternização da requalificação do que resta - se não teria sido esse um remédio. Mas só pensamos assim aparentemente. Imaginemos então o espectaculo deprimente da Alta coimbrã demolida se esta ainda existisse. Imagine-se o que seria o actual abandono e o estado de degradação daquela zona, tendo em conta os que resistiram e sobreviveram. A vingança (se assim lhe podermos chamar) de Oliveira Salazar, talvez pelo vexame da curta prisão, mandou, sobre ela, avançar o ferrete arquitectónico do Estado Novo. Na segunda metade do século XX, Coimbra vai modernizar o casco medieval da sua parte mais Alta, à força, de camartelo. Uma ideia de cidade morreu ali. Mas existem outras, embora não queiramos sujeitar este texto a uma eterna lamentação. Embora o seja, não é disso que aqui tratamos. Porque entretanto o poder autárquico pós-74 nunca foi capaz de resolver o problema. Mendes Silva foi igualmente culpado desta feérica ideia de Coimbra. Coimbra de futuro, mas sem rosto. Ora, quando dos ventos das diversas e diferentes modernizações sopraram sempre medidas de subalternidade do passado, de sujeição a uma modernização serôdia, de uma permanente venda a pataco do casco medieval, tal facto devia obrigarmo-nos a uma sólida e permanente reflexão. Poderemos chegar lá através destas fórmulas. Também. Embora o responsável, também ele parte dessa plêiade de decisores do futuro desta cidade nas últimas décadas. Durante as quais os erros se têm vindo a acumular de uma forma absolutamente irresponsável. Lutar pela identidade não é arenga de passadistas. Assim desapareceram os "ronceiros" e barulhentos eléctricos de uma cidade que se diz, como descobri na identificação da notícia desse Sol lisboeta, do interior. Em Portugal voltou a imperar o velho silogismo de que fora da capital só existe província. Provincianismo lisboeta que, de novo, fede. Embora tenha sabido manter os "carros eléctricos" a circular nas suas ruas. O que denuncia toda essa diferença. Entre uma capital e uma cidade de interior e provinciana.
16.Nov.07

Propaganda

O Prosas Vadias não é blogue que se integre (na verdade, na verdade, isso dos blogues é o quê? Local de liberdade expositiva. Parece-me. De leituras do Mundo. As nossas. Também me parece. Vestidos de múltiplas roupagens. Igualmente.) na esquerda, nem ao centro, nem na direita. Muito menos nas extremas. Embora por vezes se extreme. A questão política por aqui segue determinado rumo. Embora aparente falta dele. É propósito. As prosas são do CONTRA. Não confundir com gosto pela contra-mão. A nossa dextra e a canhota são partes idênticas. Nenhuma delas assume alguma espécie de absoluto. Essa é uma impossibilidade absoluta. Ambas se integram na maneira de estar. Fique esclarecido.
16.Nov.07

As Chavez do petróleo


Oferta do blog Prosas Vadias ao Presidente da Venezuela. Sobretudo se entre a delegação se encontrar Venezuela Portuguesa Da Silva Isquierdo. Esperamos que a diplomacia nacional se contenha e não mande calar o homem! Prevejo foguetório e salamaleques. Da esquerda à direita. Se acontecer borrasca, o que não acredito, somos um país de gente civilizada, antecipo o troco: receberemos cerca de 600 mil portugueses aproximadamente. O rácio de padarias por habitante aumentará incomensuravelmente. Boa! Boa! Welcome!
14.Nov.07

Da História Oral




A validade do testemunho oral ou escrito importa após o trabalho da crítica. Que no caso, específico, se reporta ao trabalho do historiador. Aquele que foge de nostalgias, de saudosismos, de memórias dolorosas ou passionais. Embora a memória pessoal habite com ele. Embora as incorpore. Fazem parte. Anacronismo não é ciência. É um fantasma que não habita o seu mundo.
Na análise presente importa referir o recente filão para editores e livreiros e autores. Vejam-se quantas edições sobre a figura A. O. Salazar surgiram ao longo dos últimos meses. Quantas sobre o Estado Novo? E as perguntas surgem em catadupa. O tempo já urge? A distanciação necessária já não o é ? É já possível? Ou a questão da escrita histórica ou memorialística sobre o Estado Novo arrasta-se apenas e só (ainda?) no campo da luta ideológica?
Durante a apresentação desta última, José Hermano Saraiva terá afirmado, segundo a Agência Lusa, que "A História é feita de patranhas e mentiras". Ele lá sabe. Embora alguma da história que construiu se situe dentro desse limiar. Por aqui, espera-se que o testemunho oral da putativa "filha adoptiva de Salazar" seja colocado na estante devida: a da memória oral sobre o Estado Novo. Por muito que uns o queiram matizar de negro, outros de tons mais ou menos azulados, meus caros, na realidade o que irá importar sobre o regime que sobreviveu durante o século passado ao longo de quase cinquenta anos decorrerá no próprio momento em que já ninguém dele se lembrar. E para o saber poucos ou nenhum de nós lhe sobreviverá. Uma coisa parece-me certa, como abaixo se afirma, o tempo, esse estranho objecto do pensamento humano, apenas incorpora em si a vã polémica (testemunho oral versus testemunho escrito) no seio da escrita da história. Embora já muitos considerem que ambos concorrem para essa contextura. Cabe ao ofício fazer a escolha. Sem exorcizar qualquer.