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PROSAS VADIAS

PROSAS VADIAS

07.Out.07

Vidas "à la minuta"




















Hoje embarcámos nesta busca incessante dos nossos momentos "à la minuta". Momentos, de encantamento dos sentidos, que, sem nos darmos conta, nos procurou a atenção. Dessa forma se percorre os jornais, livros, televisões, a vida, que corre mesmo ao nosso lado. Procuram-se instantes. Instantes que preencham a nossa desenfreada falta de tempo para desfrutarmos do tempo. Como se este apenas exista na estranha confluência de mostradores e ponteiros. Produto do tempo, esta nossa falta de tempo. Procura-se descortinar a imediata velocidade e para-la. Para conseguir apreender-lhe as profundidades, as estéticas do discurso, das ideias, dos sonhos. Sem o tempo, nada feito. O espírito não se encontra na imediatez, apenas no remanso das nossas múltiplas solidões damos por ele. Os fotógrafos "à la minuta" preenchem uma parte do meu pessoal imaginário de adolescente, o infantil ainda está nas arcas da memória, descortinável apenas em forma de avulso. Um dia chegará. Como o correr das águas de um rio, desaguando no fim do tempo. Sei-o.
Não venho processar velhas tecnologias versus novas tecnologias, apenas me entretenho. A brincar com o tempo, com a memória. Um dia,não muito distante, aparecemos junto de um cavalo de cartão.
A extinção do antigo nunca nos pareceu algo irresolúvel. Não. Porque a memória ressuscita. Aqui e ali velhas palavras, tecnologias, misturando-as com novas. Eis um processo. Este, que agora estais vendo com os vossos olhos. A velha procura incessante do espírito, na junção do novo. O processo fotográfico da câmara escura democratizaria a fotografia. Sem o fingimento do estúdio. Processo quase artesanal, do foro do miraculoso, aos olhos da nossa infância. Ainda hoje dai decorre. A eternidade de um momento, estava ali à mão. Semente do que havia de vir. Minuto que acabará por se eternizar no tempo, detendo-o assim. Tal como está. Tempus fugit.
Até no papel.
04.Out.07

5 de Outubro

A maior parte de nós vive no regime republicano, embora a grande maioria não saiba já muito bem porquê.
Para além da cronologia a revolução republicana esteve na origem de um novo sistema político em Portugal, que assenta, hoje, num complexo sistema de órgãos de soberania.
República que cedo resvala para situações, onde a defesa da honra (individual) era acto de soberana importância, mais que a reflexão sobre os problemas que enfrentava. À noventa e sete anos atrás, José Relvas, Machado dos Santos, Cândido dos Reis, José Cardoso, Hélder Ribeiro, Miguel Bombarda e não os principais lideres partidários, foram os detonadores de uma ideia antiga. O regime republicano, esse sucumbiria logo em 1912, desfeita que foi a unidade republicana. Hoje, poderemos continuar a dar vivas à República. Embora apenas à República, ao busto de uma linda mulher alentejana, de seu nome Maria Puga, costureira de profissão, que faleceria com a proveta idade de 101 anos na década de Noventa, cuja autoria é atribuída ao escultor João da Silva e inaugurada em 1911, por Afonso Costa.



Viva a República
03.Out.07

Populismo

Em França estes personagens, que percorrem as ruas da capital francesa, são conhecidos como "bizarros". Gente fora do canône. Em Portugal chamam-lhes malucos.Doidos. Varridos.
Coimbra que me lembre possuía, ou ainda possui, a sua galeria de personagens bizarras vagabundeando pelas ruas da Baixa ou na Praça da República.
Com ou sem discursos articulados, a grande maioria destas personagens dedica-se activamente à denúncia política e social, em qualquer local onde se encontre, normalmente de forma espalhafatosa, por vezes cómica. O discurso, aparentemente inconsciente e sem nexo, surge associado, na maioria dos casos, a problemas económicos e sociais que atravessam a sociedade. Sentem uma enorme necessidade de se fazerem sobressair entre os demais e de serem reconhecidos nos locais por onde deambulam, no seu quotidiano. São figuras populares e populistas. Procuram com o seu discurso captar o favor popular, que lhes alimenta o ego e o fervor do discurso.
A minha bizarraria de hoje, recupera uma desta "personagens" parte integrante não dos mitos urbanos, mas parte intrinseca das cidades actuais. Apresento-vos alguém que honra os pergaminhos destes deserdados do sistema. Vive algures no Porto, ou nos seus arredores, quem sabe. Ei-la, a Dona Ermelinda, a Deusa de Portugal:

02.Out.07

Navios da Vergonha





Trabalho num porto, passei já alguns anos de vida num cais. Ao longo deles conheci gente de muitas partes, do mundo. E conheci muitos barcos, de imensas bandeiras. A partir dos anos 90, do século XX, grande parte das bandeiras das embarcações que aportam na maioria dos portos nacionais, como em quase todos os portos do mundo passaram a ser as denominadas "bandeiras de conveniência" - o termo diz tudo, ou quase tudo. As autoridades portuárias nacionais , europeias, mundiais, os governos a que estão ligadas, pouco querem ou sabem da verdadeira dimensão do problema que esta longa metragem doumental independente dá a conhecer. Atentem bem nesta dimensão: 90% das mercadorias que circulam no mundo global são movimentadas por navios. A maioria destas mercadorias circulam por via marítima, desde a mais minúscula peça ao petróleo, que posteriormente consumimos nas nossas viaturas. É um mundo imenso que se encontra imerso na actividade portuária. A maior parte dos problemas aqui denunciados pela cineasta canadiana Michelle Smith, cujo trabalho decorreu ao longo de cinco anos, estão completamente ausentes da maior parte, senão da maioria dos imensos colóquios que se realizam sobre transportes marítimos no nosso país. Normalmente estes colóquios são realizados e orientados pelas companhias que dominam o mercado, na sua maioria representam apenas uma actividade de "lobbing" junto dos governos e dos ministérios que tem a seu cargo as orientações e o desenvolvimento do sector portuário. Para além da precariedade do emprego, movimentam-se em Portugal, verdadeiros monopólios que controlam a circulação, o trabalho e o despacho das mercadorias, nos portos nacionais. A actual política de privatização de terminais portuários está em marcha, depauperando, através de concessões verdadeiramente ultrajantes, quer no tempo de concessão, quer nas contrapartidas exigidas pelo Estado, que estão a permitir, em terra, o mesmo que se passa actualmente a bordo dos navios. Os contratos de trabalho à peça/navio ou à hora são as fórmulas mais comuns de afectar trabalhadores nos portos nacionais. País anteriormente detentor de uma razoável marinha mercante, desmantelada ao longo dos últimos trinta anos, que resulta, em parte, da total desregulação do sector a nível mundial, que acabou por penalizar um sector que havia sido altamente protegido durante o Estado Novo . Hoje resta, a Portugal, com grande parte das suas fronteiras viradas para o Atlântico, ficar com os restos da depredação encetada pelas grandes companhias de transporte marítimo, transformar-se numa plataforma flutuante da placa giratória das diferentes rotas do comércio mundial. Sines é um caso nacional a acompanhar nos próximos tempos e onde se movimentam grandes interesses chineses. Fica aqui um testemunho, que muitos dos actuais trabalhadores portuários desconhecem e que na sua imensa maioria vão continuar a desconhecer, embora vivam esta realidade todos os dias. A longa metragem documental "Les Navires de la Honte" será mostrada no Teatro Académico Gil Vicente, dia 8 de Outubro pelas 21.15. Leva-nos "ao mundo conturbado dos armadores que se furtam ás normas legais de exercício da actividade e do trabalho aplicáveis nos seus próprios países, matriculando os seus navios no estrangeiro, em paraísos fiscais, como o Panamá, as Bahamas ou a Libéria (ou a Madeira),[...] contratam marinheiros a baixo custo nas Filipinas, na Índia, na China ou na Ucrânia." Em terra está a começar a suceder o mesmo. Os Navios da Vergonha conta-nos a história de alguns desses escravos do século XXI.

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