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PROSAS VADIAS

PROSAS VADIAS

12.Out.07

"Lobos do Mar" - a memória histórica figueirense na pesca do bacalhau.

Chegada do Bacalhau. Navio Lusitânia (década de Quarenta do século XX). Cliché Manuel Santos.

A Exposição decorre no Centro de Artes e Espectáculos. Essa fabulosa e inquestionável herança "santanista" que ainda hoje causa engulhos aos peripatéticos membros das "inteligências" políticas locais. Quer na oposição, quer no poder. Uns esperando, de forma serôdia, que lhes chegue a vez de se tornarem comandantes da Nau. Entretanto assistem á decomposição. Não se adiante o assunto demais. Não porque não se possa. Apenas porque o que nos traz hoje à escrita parece mais relevante. A razão decorre do visível desnorte que fustiga e habita esta terra de nortadas. E não é nada demais. Em duas linhas dizemos ao que vimos. E, de seguida, iremos embora. Da "Caixa de Memória", qual caixa de Pandora, soltam-se cerca de quatrocentos rostos de pescadores figueirenses, que o Museu Municipal de Ílhavo transportou até à cidade, terra de pesca e de pescadores, convém não esquecer. Rostos de uma parte substancial dos seus homens que estiveram ligados a essa "Epopeia" que o Estado Novo se encarregou de associar a essa outra de "Quinhentos" : a pesca do bacalhau.

Alguns daqueles rostos, ainda estão vivos. Coisa de somenos importância? Não. O Museu Marítimo, inaugurado em 1937, para além da difusão do trabalho de investigação e recolha de fontes primárias que tem levado a cabo, promove junto das personalidades ainda vivas do mural dos "lobos do mar" figueirenses a recolha dos seus depoimentos orais. Acrescenta assim o Museu ao seu já rico espólio, sobre a reconstrução histórica da actividade, a mais-valia do testemunho oral, vivo e vivido. Documento histórico não escrito, relatado na primeira pessoa, memórias invocadas e filtradas pela poalha do tempo. Nada impede que seja no entanto elemento da investigação histórica, da escrita da história.

Ao percorrermos aquelas paredes, a exposição em si mesma, a observação desse imenso trabalho de recolha e tratamento das fontes fotográficas por parte do Museu de Ílhavo, não deixa de levantar, em nossa opinião, algumas questões pertinentes. Talvez um pouco contra a corrente, no fundo desejamos que a exposição seja visitada pelo maior número de figueirenses possível, que a sua apresentação á comunicação social deixou pressentir. Mas estas são apenas questões a montante da agora e em boa ora inaugurada exposição. O que vimos questionar prende-se com a particularidade de grande parte do acervo sobre a mesma temática, existente em tempos na Figueira da Foz, ter sido deslocado, cedido ou entregue, como se queira, para o Arquivo do Museu Marítimo de Ílhavo.

Reatamos a primeira premissa, antes da questão, não colocamos em causa a oportunidade nem o exposto, o trabalho desenvolvido pelo museu de Ílhavo em prol da memória histórica. Não. O que aqui se coloca em causa é esse abandono da memória histórica da cidade, perpetrada pelas suas elites. Porque são estas que decidem sobre estes assuntos. São estas as responsáveis por essa parte indelével que marcou e marca a sua vida colectiva e que se reporta à conservação dessa memória. Para que a cidade não perca uma parte constitutiva da sua identidade, uma parte das suas gentes. A "Caixa de Memória" sobre os "lobos do mar" figueirenses foi agora reposta, a título de justiça, após descuido e desmazelo. Demonstra essa capacidade perdida ou enjeitada. Sobrou da "malapata" figueirense, a mais valia dessa herança deixada pelo Comandante Manuel Luís Pata, na sua trilogia sobre a Figueira da Foz e a pesca do "fiel amigo", que nos acompanha desde o século XVI. A forma como tem sido tratadas as memórias históricas e o espólio memorialístico figueirense leva a considerar que este tributo seja apenas o tributo que as gentes de Ílhavo resolveram dispensar aos camaradas figueirenses que os acompanharam na penosa faina que os uniu a todos nos mares gelados da Terra Nova, a bordo da "Frota Branca" durante a II Grande Guerra.

Na realidade foi a fuga à penúria, à fome, o pano de fundo que juntou todos aqueles rostos. A morte e a vida. Relembrando à Figueira da Foz, de hoje, que a cidade e as suas gentes integraram essa epopeia que o Estado Novo acabaria por mitificar.