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PROSAS VADIAS

PROSAS VADIAS

02.Out.07

Navios da Vergonha





Trabalho num porto, passei já alguns anos de vida num cais. Ao longo deles conheci gente de muitas partes, do mundo. E conheci muitos barcos, de imensas bandeiras. A partir dos anos 90, do século XX, grande parte das bandeiras das embarcações que aportam na maioria dos portos nacionais, como em quase todos os portos do mundo passaram a ser as denominadas "bandeiras de conveniência" - o termo diz tudo, ou quase tudo. As autoridades portuárias nacionais , europeias, mundiais, os governos a que estão ligadas, pouco querem ou sabem da verdadeira dimensão do problema que esta longa metragem doumental independente dá a conhecer. Atentem bem nesta dimensão: 90% das mercadorias que circulam no mundo global são movimentadas por navios. A maioria destas mercadorias circulam por via marítima, desde a mais minúscula peça ao petróleo, que posteriormente consumimos nas nossas viaturas. É um mundo imenso que se encontra imerso na actividade portuária. A maior parte dos problemas aqui denunciados pela cineasta canadiana Michelle Smith, cujo trabalho decorreu ao longo de cinco anos, estão completamente ausentes da maior parte, senão da maioria dos imensos colóquios que se realizam sobre transportes marítimos no nosso país. Normalmente estes colóquios são realizados e orientados pelas companhias que dominam o mercado, na sua maioria representam apenas uma actividade de "lobbing" junto dos governos e dos ministérios que tem a seu cargo as orientações e o desenvolvimento do sector portuário. Para além da precariedade do emprego, movimentam-se em Portugal, verdadeiros monopólios que controlam a circulação, o trabalho e o despacho das mercadorias, nos portos nacionais. A actual política de privatização de terminais portuários está em marcha, depauperando, através de concessões verdadeiramente ultrajantes, quer no tempo de concessão, quer nas contrapartidas exigidas pelo Estado, que estão a permitir, em terra, o mesmo que se passa actualmente a bordo dos navios. Os contratos de trabalho à peça/navio ou à hora são as fórmulas mais comuns de afectar trabalhadores nos portos nacionais. País anteriormente detentor de uma razoável marinha mercante, desmantelada ao longo dos últimos trinta anos, que resulta, em parte, da total desregulação do sector a nível mundial, que acabou por penalizar um sector que havia sido altamente protegido durante o Estado Novo . Hoje resta, a Portugal, com grande parte das suas fronteiras viradas para o Atlântico, ficar com os restos da depredação encetada pelas grandes companhias de transporte marítimo, transformar-se numa plataforma flutuante da placa giratória das diferentes rotas do comércio mundial. Sines é um caso nacional a acompanhar nos próximos tempos e onde se movimentam grandes interesses chineses. Fica aqui um testemunho, que muitos dos actuais trabalhadores portuários desconhecem e que na sua imensa maioria vão continuar a desconhecer, embora vivam esta realidade todos os dias. A longa metragem documental "Les Navires de la Honte" será mostrada no Teatro Académico Gil Vicente, dia 8 de Outubro pelas 21.15. Leva-nos "ao mundo conturbado dos armadores que se furtam ás normas legais de exercício da actividade e do trabalho aplicáveis nos seus próprios países, matriculando os seus navios no estrangeiro, em paraísos fiscais, como o Panamá, as Bahamas ou a Libéria (ou a Madeira),[...] contratam marinheiros a baixo custo nas Filipinas, na Índia, na China ou na Ucrânia." Em terra está a começar a suceder o mesmo. Os Navios da Vergonha conta-nos a história de alguns desses escravos do século XXI.