Figueira da Foz, Eterna Rainha. Suplemento da Revista Terras de Portugal, de J. Oliveira Santos, s.d.A propósito das querelas que atravessam por estes dias a cidade, lembrei-me de Ramalho Ortigão, que, de pena afiada, desbravou a alma figueirense como nenhum outro. Basta no texto actualizar os nomes, dado que 125 anos depois está tudo no mesmíssimo lugar, tal como Ramalho Ortigão, descreve. Escrevia ele que :
"a grande feição peculiar e característica da Figueira é a que lhe imprime a sua vida política. Em nenhuma outra parte do mundo (reparem bem, do mundo...) vi fenómeno mais curioso e mais extraordinário. Em todas as outras partes há mais ou menos uma certa política de aplicação prática ao interesse da localidade. Na Figueira o carácter da política é inteiramente abstracto, transcendental, figurado, alegórico, mítico. Não se trata nem da Igreja, nem da escola, nem da estrada, nem da fonte, nem do mercado, nem de coisa alguma viva, corpórea e real. Trata-se unicamente da ideia adelgaçada, subtilizada até ao ponto de não significar coisa nenhuma. Os habitantes da Figueira são todos, em política, ou regeneradores ou progressistas. Como por baixo de cada uma destas denominações, puramente metafisicas, não há mais nada, toda a controvérsia e toda a contestação se torna impossível sobre semelhante assunto. [...] Não havendo na Figueira e seu termo um único individuo - de um ou de outro sexo - que não seja regenerador ou progressista, e sendo completamente incompatíveis entre si, como já disse, os dois partidos, há uma assembleia recreativa para regeneradores e há outra, a respeitosa distância, para os progressistas. esta separação e esta dualidade correlativa estende-se a todos os estabelecimentos da cidade. Há padeiros progressistas e padeiros regeneradores, os barbeiros especiais e privativos de um e de outro partido, os cafés, os restaurantes, as batotas, as camisarias, as mercearias, os médicos, os pedicuros, os criados de servir, as filarmónicas, as farmácias, os alfaiates, as costureiras - tudo por parelhas, tudo binário, tudo em duplicação, para uso dos partidários do Sr. Anselmo Braamcamp e do Sr. Fontes Pereira de Melo, conquanto, acerca dos princípios governativos que distinguem esses dois chefes de partido, sejam quase todos os figueirenses, que não conhecem pessoalmente nem o sr. Fontes nem o sr. Braamcamp, no mesmo estado de tenebrosa ignorância em que eu próprio me encontro. [...] As duas filarmónicas não passam jamais uma pela outra sem subsequentemente obrigarem os respectivos partidos a consideráveis despesas para o fim de lhes renovarem os instrumentos e os queixos. [...] Ora, o mais curioso de tudo é que, em tal estado de coisas, se não dissolve coisa nenhuma! Tudo se equilibra e se compensa de um modo digno da cogitação dos filósofos. Os regeneradores e os progressistas da Figueira, que são um de um partido para o outro os mais terríveis e irreconciliáveis inimigos, são entre si de uma união e de uma solidariedade de que não se encontra exemplo em nenhuma outra parte. [...] Se o regenerador constrói um teatrinho, o progressista constrói a seguir um teatrão, se o progressista deita um foguete, o regenerador deita uma girândola. E assim sempre, de mais a mais e de melhor a melhor" (1)
Conclusão: Aguarda-se nos próximos tempos a visita do Primeiro-Ministro à Figueira da Foz, em visita oficial às instituições do outro lado da rua. Para que ninguém se fique a rir e assim manter o equilíbrio figueirense e das suas gentes! E ficamos todos contentes.
(1)Ramalho Ortigão, As Farpas,Lisboa, Clássica Editora, 1986, vol. I, p.265-270.









