23
Set 07
Figueira da Foz, Eterna Rainha. Suplemento da Revista Terras de Portugal, de J. Oliveira Santos, s.d.

A propósito das querelas que atravessam por estes dias a cidade, lembrei-me de Ramalho Ortigão, que, de pena afiada, desbravou a alma figueirense como nenhum outro. Basta no texto actualizar os nomes, dado que 125 anos depois está tudo no mesmíssimo lugar, tal como Ramalho Ortigão, descreve. Escrevia ele que :
"a grande feição peculiar e característica da Figueira é a que lhe imprime a sua vida política. Em nenhuma outra parte do mundo (reparem bem, do mundo...) vi fenómeno mais curioso e mais extraordinário. Em todas as outras partes há mais ou menos uma certa política de aplicação prática ao interesse da localidade. Na Figueira o carácter da política é inteiramente abstracto, transcendental, figurado, alegórico, mítico. Não se trata nem da Igreja, nem da escola, nem da estrada, nem da fonte, nem do mercado, nem de coisa alguma viva, corpórea e real. Trata-se unicamente da ideia adelgaçada, subtilizada até ao ponto de não significar coisa nenhuma. Os habitantes da Figueira são todos, em política, ou regeneradores ou progressistas. Como por baixo de cada uma destas denominações, puramente metafisicas, não há mais nada, toda a controvérsia e toda a contestação se torna impossível sobre semelhante assunto. [...] Não havendo na Figueira e seu termo um único individuo - de um ou de outro sexo - que não seja regenerador ou progressista, e sendo completamente incompatíveis entre si, como já disse, os dois partidos, há uma assembleia recreativa para regeneradores e há outra, a respeitosa distância, para os progressistas. esta separação e esta dualidade correlativa estende-se a todos os estabelecimentos da cidade. Há padeiros progressistas e padeiros regeneradores, os barbeiros especiais e privativos de um e de outro partido, os cafés, os restaurantes, as batotas, as camisarias, as mercearias, os médicos, os pedicuros, os criados de servir, as filarmónicas, as farmácias, os alfaiates, as costureiras - tudo por parelhas, tudo binário, tudo em duplicação, para uso dos partidários do Sr. Anselmo Braamcamp e do Sr. Fontes Pereira de Melo, conquanto, acerca dos princípios governativos que distinguem esses dois chefes de partido, sejam quase todos os figueirenses, que não conhecem pessoalmente nem o sr. Fontes nem o sr. Braamcamp, no mesmo estado de tenebrosa ignorância em que eu próprio me encontro. [...] As duas filarmónicas não passam jamais uma pela outra sem subsequentemente obrigarem os respectivos partidos a consideráveis despesas para o fim de lhes renovarem os instrumentos e os queixos. [...] Ora, o mais curioso de tudo é que, em tal estado de coisas, se não dissolve coisa nenhuma! Tudo se equilibra e se compensa de um modo digno da cogitação dos filósofos. Os regeneradores e os progressistas da Figueira, que são um de um partido para o outro os mais terríveis e irreconciliáveis inimigos, são entre si de uma união e de uma solidariedade de que não se encontra exemplo em nenhuma outra parte. [...] Se o regenerador constrói um teatrinho, o progressista constrói a seguir um teatrão, se o progressista deita um foguete, o regenerador deita uma girândola. E assim sempre, de mais a mais e de melhor a melhor" (1)
Conclusão: Aguarda-se nos próximos tempos a visita do Primeiro-Ministro à Figueira da Foz, em visita oficial às instituições do outro lado da rua. Para que ninguém se fique a rir e assim manter o equilíbrio figueirense e das suas gentes! E ficamos todos contentes.

(1)Ramalho Ortigão, As Farpas,Lisboa, Clássica Editora, 1986, vol. I, p.265-270.




Mundo fascinante o da manipulação das marionetas. A liberdade explicada em seis minutos de pura poesia, num trabalho do Philippe Genty Puppeteer. Redescoberto pela mão deste Blog.
publicado por carlosfreitas às 01:15

22
Set 07


Uma forma de amar as cidades onde vivemos é conhecer-lhe a história. Este ciclo de conferências pode ajudar. Embora se ache que para cumprir esse sonho se devia avançar no tempo. No tempo cronológico, bem entendido. Cidade, cuja Faculdade de Letras nos legou alguns dos mais importantes estudiosos medievalistas nacionais, interdito que estiveram, até 1974, os estudos para além dessa meta cronológica. A riqueza deste trabalho, desse profícuo labor histórico, continua, como não poderia deixar de ser, e, a resposta a essa constante do trabalho do historiador, concretiza-se neste ciclo de conferências sobre a tão rica e sempre inesgotável Coimbra Medieval. Percorramos as marcas visíveis de romanos e árabes. As da Coimbra móçarabe de Dom Sesnando. A Judiaria da Rua do Corpo de Deus. Capital religiosa, de múltiplos e poderosos mosteiros, alguns entretanto abandonados e hoje pertença de particulares como S. Jorge de Milréu, lá, na outra margem, a esquerda do Mondego. A margem permanentemente abandonada. Para além do rio. Cidade muralhada, de múltiplas portas, em crescendo para além das muralhas, expandindo-se para fora da principal- a porta de Almedina. Em direcção à zona baixa. Origem da cidade dual, a parte baixa, a parte da alta. Cidade de mesteres e do estudo. Separadas, embora em permanente contacto e conflito. Um dédalo de pequenas ruas e vielas, regularmente inundadas pela águas do rio. São estas algumas das visualizações desta cidade que parece eternamente medieval. Em Coimbra nos dias 11, 12 e 13 de Outubro próximo. Bem vindos.

(para ver programa, basta clicar na imagem)

publicado por carlosfreitas às 21:36

19
Set 07
A Ecografia aqui mostrada não tem que ver com a questão aqui colocada!
Confesso, antes de mais, que escrevo hoje sobre assunto sobre o qual não possuo nenhum conhecimento. Mas, possuindo uma já muito razoável experiência sobre Centros Saúde, Urgências hospitalares e sobre os seus profissionais (médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar) venho discorrer de forma reflexiva sobre o que ontem aconteceu nas Urgências hospitalares de uma grande unidade de Coimbra. O que aconteceu não difere muito do que que já tinha ouvido contar, citar e viver a outros. Sabemos que em épocas (dizem-nos) de mudanças profundas, radicais mesmo, o clima instalado gera, por ineficiência dos mandantes, por incapacidade gerais do ser humano de se adaptar rapidamente ás mudanças, problemas que urge, antes de serem implementadas novas tendências (estamos no século XXI, temos que utilizar os novos conceitos!) e um conjunto de novas práticas, adequar e prever antecipadamente da possibilidade de falhas no sistema agora imposto. A racionalidade não devia, nem deve ser apenas económica, nos gastos, como também devia ser nos pagamentos finais do utente (eis a definição do que somos quando entramos num hospital), nem a preocupação fundamental deveria ser a de reduzir, ou colocar em lugares chaves do hospital, como são as urgências e a triagem dos doentes, médicos em princípio de carreira, estagiários de medicina a enfrentar o monstro da doença e da morte que diariamente ali acorrem. Afastando por motivos economicistas os mais experimentados, os mais capazes, os que pela experiência deveriam dirigir aqueles serviços. Pois ontem à Ana, aconteceu uma dessas experiências, que urge recordar, para alertar, que não denunciar, sobre perigos que podemos enfrentar, quando nos entregamos, nas mãos daqueles que por inerência das funções que desempenham supomos todos que tenham competências á altura dos serviços que prestam. E que no caso concreto as parecem não ter. As dores que apresentava situavam-se tangencialmente entre o plano cranial e o caudal, na região do ventre e apresentado sintomas febris. Eram 21.15 minutos quando deu entrada no serviço de triagem, três horas após estava a ser-lhe proposta uma intervenção cirúrgica que implicava intervenções ao nível da vesícula e do apêndice. A Ana, embora não sendo médica, pediu uma segunda opinião a um segundo médico, seu conhecido, que aconselhou a médica de serviço a configurar e a ponderar a situação clínica do doente, parando, inclusive a sua ida para o bloco operatório, propondo apenas que fosse efectuado um clister ao doente, que minutos antes, se não tivesse alguns conhecimentos fisiológicos e de sintomatologia esse Médico amigo e conhecido e com credibilidade na comunidade médica desta cidade, estaria a ser operada. A Ana resolveu arriscar, colocando em causa a decisão DA TRIAGEM e acabou por sair do hospital por volta da 01.00 da manhã de hoje pelo seu pé. A reacção da Ana ao surrealismo da situação, valeu-lhe acordar hoje sorridente, continuar com o seu apêndice, com a sua vesícula, nada que não tenha sido debelado com um clister e uma botija de água quente na região abdominal.
publicado por carlosfreitas às 13:55

Para que ninguém se esqueça das grades que se erguem.


Desculpe Caro João, pegar aqui na sua chamada de atenção de 18 de Setembro de 2007. É que para além deste dia ser marco importante na vida da minha pessoa, passou a ter dois. O exemplo de Edmundo Pedro, passou a ocupar esse lugar. Gostaria ainda de comparar o seu exemplo com o comportamento do seu companheiro (é assim que eles se tratam, bem entendido) em Washington. Exemplos demonstrativos de dois caminhos morais (se é que isso tem algum valor nestes dias que correm) e éticos propostos à sociedade portuguesa. Uns correm em prol de um conceito sobre o corpo, realçando a imagem que querem impregnar, inculcar no espírito, lutando pelos seus ideais, outros desprezam o corpo para erguer a memória, lutam igualmente pelos seus. Dois conceitos de vida, conceitos em si, antagónicos, que transversalmente atravessam a vida das gentes. São ambos exemplos. Um, virado para o exterior, outro, virado para o interior, local por excelência, onde se guardam as memórias não imagéticas, mas morais. Desculpem-me, mas continuo a preferir as morais. E não reduzam a atitude de Edmundo Pedro, à de um romântico, fora do tempo. Quem está fora do tempo são esses outros, aqueles que sabem que na política não sobrevivem os honestos, a ética e o humanismo. Mas praticam-na. Porque o homem vive de atitudes, onde umas valem mais que outras. Umas perduram, outras correm de encontro à indiferença.
publicado por carlosfreitas às 12:50

Millôr Fernandes
publicado por carlosfreitas às 03:05
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17
Set 07

"Historiogarfo é o sujeito que estuda a culinária ao longo da História."
publicado por carlosfreitas às 22:51

16
Set 07

Como se bastasse olhar para a história, para justificar o que se pensa sobre o Iberismo. Depende da história de que se quer falar, ou pôr a falar, esta é outra, a da operação que colocou lado a lado Henrique Galvão, Camilo Mórtágua, o espanhol José Férnandez, o político galego, exilado na Venezuela, Xosé Velo Mosquera, entre muitos outros membros do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação. O acontecimento compagina um dos acontecimentos (22 de Janeiro de 1961) que então abalou fortemente o regime em Portugal. O documentário, cujo o cartaz incluímos, nunca chegou a ser editado em Portugal. Embora tenha sido mostrado em muitos locais. É que, embora, não sendo uma produção nacional, permite entender a existência de muitos tipos de Iberismo. Este fez parte de um episódio em que os dois lados se uniram para denunciar as ditaduras fascistas que perduravam após a II Grande Guerra.
Uma parte do nascimento deste documentário pode ser lido aqui.
A questão Ibérica não se resume à Restauração ou ao domínio filipino, nela surgem outras nuances hstóricas, que por conveniência dos factos, não nos convém postergar.
publicado por carlosfreitas às 18:37



Guerra Junqueiro, Pátria, 1896.
Embora algumas "tricas" pessoais com o Senhor Guerra Junqueiro, destas não rezará a história, mas alguns dos seus textos, este, a propósito da crise desencadeada pelo Mapa Cor-de-Rosa, passados que estão 111 anos sobre o mesmo, não parece descabido dar-lhe nota de actualidade.
Pessimismo! Mas qual pessimismo, realismo. Embora sem reis nem rainhas, a parte do texto aqui transcrito, deixa perceber que pouco mudou, ou que tudo mudou para que tudo se mantenha na mesma.


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e
sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de
vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a
energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as
moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem
onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é
bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo
misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa
morta.



Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não
descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter,
havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em
pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da
mentira a falsificação, violência ao roubo, donde provem que na política
portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos,
absolutamente inverosímeis.



Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de
quarto do moderador; e este,finalmente, tornado absoluto pela abdicação
unânime do País. [.] A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara
ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos [.] sem ideias, sem
planos, sem convicções, incapazes, [.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo
céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um
ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo,
apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos
duma vez na mesma sala de jantar."
A circularidade, andamos em círculos....infinitamente, acrescento eu. Eis uma das nossas peculiares formas de estar no mundo.
O texto circula ele igualmente pela blogoesfera nacional. Se apela à percepção da não-mudança, como realidade inquestionável, ou vontade de mudar, não se sabe. Que circula, ele, o texto, circula, porque nunca é demais deixar dito.





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publicado por carlosfreitas às 17:56

15
Set 07
As Respigadoras de Jean François Millet,</span> 1857.


Que pode importar se a criança desapareceu ou está morta? Que circo é este? Que a chapada tenha sido ou não sido! Como se o mundo depende-se disso! Que um Presidente diga que sim ou que não sobre qualquer dos assuntos. Ai quanto não valem as atenções desenquadradas. Volta aeroporto da Ota ou de Moscavide, mais três ou dez se for preciso. Estais todos perdoados, os a construir ou em vias de o ser! Tanto barulho, noise, bruit para quê? Ruído, sound-bits para entreter! O desemprego! Mas, isso é o quê? Proletários!!! Já não existem! Respigadores dos desperdícios nos caixotes do lixo da minha rua, donde vindes? Vocês não existem! Que porra! Donde vindes vós borrar a pintura! Sombras nocturnas que recolhem restos e que se queixam que os restos são cada vez menos! Com sentido critico estes respigadores! Mas isto está um paraíso! Pintado de fresco com computadores, presidências de Uniões de facto, esquerdas que parecem direitas e vice-versa! Quel rigolade! Estamos á beira de ser um pays excrément.

Respigador: Aquele que vive da recuperação de coisas (detritos, sobras) como forma de sobrevivência.
publicado por carlosfreitas às 23:20

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