O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis (o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários (assim assim)
escriturários (muitos)
intelectuais (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Nasci em período de medos.
Cresci, disseram-me, em Democracia, que me ensinou que não se devia ter medo.
Que por vezes a liberdade custa sangue, para ser conquistada.
Nasci num período em que existiam pessoas que vigiavam outras pessoas, apenas por mera vontade de vigiarem.
Cresci num período em que a Democracia ensinava que as pessoas deviam viver em liberdade, expressar as suas opiniões, assumindo o que pensavam, sem gente que as vigiasse, mesmo que as suas ideias fossem contra a corrente, sem medo.
Ensinaram-me que se fosse responsável, podia ser livre.
Hoje falam-me de medo, de um medo que antes existia e eu nunca conheci.
Não sei se ele é igual.
O medo de hoje, escrevem, tem que ver com a liberdade. A liberdade que me disseram que não existia, quando nasci.
Mas eu nunca senti medo, mesmo sabendo que não tenho nenhum quadrado, continuo a acreditar que vivo em Democracia.
Como muitos outros que nunca acreditaram que o medo poderia durar eternamente.
Sabendo mesmo que existem outros cidadãos que não conseguem viver sem partilhar o seu medo, e outros, alguns, muitos, não sei, que gostam de sentir o odor ao medo, dos que tem medo. Espalham o medo. O que eles querem é que o medo exista.
Por isso o medo não existe.
São eles que tem medo, tem medo da liberdade.
Tem medo dos que continuam sem medo.
Tem medo de não saberem ser livres.
Esse é o medo que está medrar, daninho.
E eu tenho asco a um país com medo da liberdade, ao país onde nasci e onde existia medo.
Um medo que disseram não voltaria a existir. Por isso continuo sem medo.
Mesmo que o medo me apague.
