20
Nov 19

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Ilustração  raquelfelgueiras.com

Miguel Torga

   
    Riba Dal é terra de judeus. Baldadamente, pelo ano fora, o Padre João benze, perdoa, baptiza e ensina o catecismo por perguntas e respostas. - Quem é Deus?  - É um Ser todo poderoso, criador do Céu e da Terra. Na destreza com que se desenvencilham do interrogatório, não há quem possa desconfiar que por detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco. Mas está. E à hora da morte, quando a um homem tanto lhe importa a Thora como os Evangelhos, antes que o abade venha dar os últimos retoques à pureza da ovelha, e receba da língua moribunda e cobarde a confissão daquele segredo - abafador. Desses servos de Moisés, encarregados de abreviar as penas deste mundo e salvar a honra do convento, o maior de que há memória é o Alma-Grande. Alto, mal encarado, de nariz adunco, vivia no Destelhado, uma rua onde mora ainda o vento galego, a assobiar sem descanso o ano inteiro. Quem vinha chamar aquele pai da morte já sabia que tinha de subir pela encosta acima a lutar como um barco num mar encapelado. - Raios partam o vento! Mas quê! Do mesmo modo que o Alma-Grande era certo na casa da esquina, sempre ao borralho, era certo o bafo da Sanábria a varrer a ladeira. Diante da casa, bastava gritar-lhe o nome. - Tio Alma-Grande! ó Tio Alma-Grande! Lá vai... Daí a nada a tenaz das suas mãos e o peso do seu joelho passavam guia ao moribundo. Entrava, atravessava impávido e silencioso a multidão que há três dias, na sala, esperava impaciente o último alento do agonizante, metia-se pelo quarto dentro, fechava a porta, e pouco depois saia com uma paz no rosto pelo menos igual à que tinha deixado ao morto. Os de fora olhavam-no ao mesmo tempo com terror e gratidão. Às vezes, uma voz ou outra, depois do pesadelo, levantava-se do fundo da consciência e protestava; mas no dia seguinte acontecia ser essa mesma voz que no alto do Destelhado, sobrepondo-se à força do vento, o reclamava. - Tio Alma-Grande! ó Tio Alma-Grande! 
 
- Lá vai...  E aparecia à porta logo a seguir. Quando a hora do Isaac chegou, foi um filho, o Abel, que trepou a ladeira. O garoto vinha excitado, do movimento desusado de casa, da maneira estranha como a mãe o mandara chamar o Tio Alma-Grande, e da ventania. - Que tem o teu pai, rapaz? O pequeno olhou fixamente a cara seca do abafador. - Febre... - Bem, vamos então lá... - E que é que o Tio Alma-Grande lhe vai fazer? - Vê-lo... Pela rua abaixo só o vento falava. Rouco de tanto bradar, monocórdico, persistente, era nele que tinha expressão a intimidade de ambos: um, o pequeno, nervoso, inquieto, a braços com pressentimentos confusos, que se recusavam a sair-lhe do pensamento; o outro, o velho, a aceitar aquele destino de abreviar a morte como um rio aceita o seu movimento. Em casa havia lágrimas desde a soleira da porta. Mas a entrada do Alma-Grande secou tudo. Atrás dos seus passos lentos e pesados pelo corredor ficava uma angústia calada, com a respiração suspensa. - O que é que ele lhe vai fazer? - perguntou de novo o Abel, agora à mãe, quando a porta do quarto se fechou. A Lia respondeu ao filho com duas lágrimas silenciosas pela cara abaixo. Lá dentro, colado à cama que a transpiração alagava, o Isaac parecia ter chegado ao fim. Branco, com dois olhos perdidos no fundo da cara, opresso, como que só esperava a ordem de largar a vela. Tinha adoecido havia quinze dias. Um febrão tal que o Dr. Samuel desanimou. Veio, tornou a vir, e acabou por aconselhar que tratassem do caixão. Mas o Isaac era cedro do Líbano, rijo, no cerne. Depois desse desengano ainda o mal o roeu seis dias sem o comer. E sempre de olhinho vivo. Gemia, gemia, finava-se, mas com aquelas duas contas de azeviche a reluzir. Acabou, contudo, por lhe pousar no rosto uma sombra estranha; e a mulher, a Lia, abriu mão da esperança. Dois dias mais, e como na sala a D. Rosa lembrasse a confissãozinha, um irmão do Isaac, o Daniel, chegou-se à cunhada e deixou cair, entre duas palavras de consolo, o nome do Alma-Grande. A Lia, a princípio, reagiu quanto pôde. Mas a perspectiva do padre João a entrar-lhe pela casa dentro venceu-a Mal rompeu a manhã, com uma voz que fez medo ao filho, mandou-o chamar o abafador. Quando o Alma-Grande entrou, o Isaac estava no auge de um combate que quase sempre se trava de corpo extenuado. O inimigo era uma parte de si mesmo apostada em perdê-lo. E a outra metade, um pedaço de ser nobre e agradecido à seiva, corajosamente defendia o resto da muralha. As bagadas pelas têmporas abaixo e um ritmo apressado da respiração davam sinal desta guerra. Mas de nada mais precisava, quem olhasse com limpos olhos humanos, para sentir a grandeza e a solenidade de tal hora. Por desgraça, o Alma-Grande não podia ver aquilo. Insensível à profundidade dos mistérios da vida, sem o estremecimento de uma fibra sequer, avançou para o leito num automatismo rotineiro. O seu papel não era olhar; era ir inteiro com as mãos ao pescoço, com o joelho à arca do peito, e retirar-se uns minutos depois, como um instrumento que tivesse cumprido correctamente a sua função. No seu castelo o Isaac pelejava sempre. O fole pressuroso do arcaboiço metia ar na fornalha; espesso, cálido, activo, o suor ia brotando do vulcão. A casa dir-se-ia um sepulcro habitado por vivos petrificados e mudos. Só no quarto havia movimento e palpitação. Calado, o Alma-Grande avançou. Mas quando de mãos abertas e joelho dobrado ia a cair sobre o Isaac, fê-lo parar uma voz diferente de todas as que ouvira em momentos iguais, que parecia vir do outro mundo, e dizia: - Não... Ainda não... Ainda não... Quantas vezes o abafador tinha escutado aquilo, gritos de desespero, apelos sôfregos e angustiados, sem se deter na sua missão sagrada! Quantas vezes! Desta, porém, o apelo e os gemidos soavam-lhe nos ouvidos doutra maneira. - Não... Não... Ainda não... Um pano escuro que até ali vendara os olhos do Alma-Grande queria rasgar-se de cima a baixo. E o abafador, paralisado entre as trevas do hábito e a luz que rompia, lembrava uma torrente subitamente sem destino. - Não... Ainda não... Ainda não... Era terrível o que se passava. A luta que o Isaac sustentava contra forças que nunca ao certo se conheceram, juntava-se o embate dos dois homens, um a saber que ia matar, outro a saber que ia ser morto. Estiveram assim algum tempo, de olhos cravados um no outro, a medir-se. Pesado, o suor escorria pela cara do Isaac; quente, o sangue martelava nas têmporas do Alma-Grande. Foi o ruído súbito e em guincho de uma porta que fez explodir aquela concentração. O barulho a ouvir-se, e o Alma-Grande, como um peso suspenso e de repente liberto, a cair em cima do moribundo. Nem uma palavra só. Apenas um baque surdo, e as mãos sôfregas do agressor à procura do pescoço do Isaac. Mas a porta que rangera dera entrada a alguém. A um vulto que o Alma-Grande adivinhava atrás das costas, parado, lívido, a tentar compreender. 
 
Um esforço supremo do Isaac para se livrar das garras que o apertavam e a presença atónita do Abel, tiraram às mãos e ao joelho do Alma-Grande a força habitual. Bem que se extremara nele o assassino, o animal que bebia a grossos tragos o fio de vida que encontrava no caminho! Bem que se lhe avivava na consciência a certeza de que era matar a razão do seu destino! Em vão. O puro instinto não tinha coragem para empurrar aquelas mãos e aquele joelho diante de uma testemunha. Ergueu-se. Com o rosto coberto por um pano de lividez igual à do agonizante, voltou-se. E sem coragem para encarar os arregalados e aflitos olhos do pequeno, que o varavam, silenciosamente, saiu. Atravessou a sala cabisbaixo, longe da majestade trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida, e a vida não lhe dava grandeza. Quando, um segundo depois, a Lia, como um bicho culpado, entrou no quarto, o filho estava sentado na cama, com a pequena mão na testa do pai. A criança debatia-se num agitado mar de brumas; mas o seu coração ditava-lhe a mãozita ali, na fronte escaldante do que lhe dera o ser, do mesmo modo que lhe ordenara já a entrada sorrateira e inquieta no quarto. E foi talvez o gesto inocente e filial que fez correr novamente nas veias do Isaac o sangue da confiança. Sem confissão, vinte dias depois comia o caldo ao lume como se nada tivesse sido. E nada tinha sido realmente para toda a gente da terra, menos para ele, para o pequeno e para o Alma-Grande. Os outros passaram da agonia à morte e da morte à ressurreição, na inconsciência de quem passa do calor ao frio e do frio novamente ao calor. Só os três sabiam, de maneiras diversas, que o drama fora mais negro e profundo. O Isaac vira as garras da morte ao natural; o Alma-Grande olhara pela primeira vez a escuridão do seu poço; o garoto, esse, pressentira coisas que não podia clarificar ainda no pensamento. Vagaroso, o tempo foi deslizando; e com ele apagara-se já de todo na lembrança da terra a doença do Isaac. Missa e Sabath. Os três, porém, debruçavam-se sem descanso sobre o lago onde se reflectia a imagem negra do passado. O Isaac, cada vez mais dorido, olhava, olhava, e via a vingança; o Alma-Grande, cada vez mais culpado, olhava, olhava, e via o medo; o pequeno, inocente, via apenas a angústia de não entender. E os três formavam como que uma ilha de desespero no mar calmo da povoação. Não se falavam, fora do filho a pedir a bênção ao pai, do pai a dar-lha, e de uma saudação ambígua e monossilábica do Alma-Grande ao passar pelo Isaac. Mas traziam-se guardados uns aos outros, como se nenhum deles quisesse perder a hora em que, para a eternidade, varressem do céu das consciências a nuvem pesada que o toldava. 
  
E esse momento, finalmente, chegou. Vinha o Alma-Grande de ver a filha e os netos, em Bobadela, quando o Isaac, que o seguia como um cão de fila, lhe saltou à estrada. Testemunhas, só Deus e o Abel, que, sem o pai suspeitar, o acompanhava também por toda a parte, e olhava a cena escondido atrás de um fragão. - Não matarás...  Assim era no Evangelho. Fora dele, numa lei diferente, a moral tinha outros caminhos, como o próprio Alma-Grande sabia. - Não matarás... O Isaac, porém, olhava o Alma-Grande com os mesmos olhos implacáveis que lhe vira nas horas de agonia. - Não... Não... Mas o Isaac era o mais novo e o mais forte. E. quando o Alma-Grande foi a dar conta, estrebuchava no chão, de costas, com o pescoço apertado nas mãos do outro, e com a tábua do coração sob o peso infinito de um joelho. - Não... Não... O pequeno, do penedo, via a cara congestionada do Alma-Grande, e ouvia o esforço da respiração a forçar o garrote. - Não... Possantes, inexoráveis, as tenazes iam apertando sempre. E, com mais um estertor apenas., estavam em paz os três. O Isaac tinha a sua vingança, o Alma-Grande já não sentia medo, e a criança compreendera, afinal.  

Miguel Torga

Em ´´Novos Contos da Montanha``
publicado por carlosfreitas às 13:13

Inquietação

 

José Mário Branco

publicado por carlosfreitas às 13:05

11
Nov 19

Um ano depois

 

Regressamos às Prosas Vadias, com um conto. Com o adiantado processo de desaparecer das redes socias, voltamos a eleger o blogue como local preferido da

escrita. Aqui iremos voltar com mais regularidade durante os próximos tempos. É que o tempo está a isso propício. 

 

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publicado por carlosfreitas às 20:15

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Entre aviões, cruzei-me, há dias, com a D. Fazia tempo que não nos víamos, desde que saira da faculdade, ela era ainda caloira. Por sinal, bastante vistosa. Conheci a miúda, rencontro uma mulher feita. Em trânsito para Buenos Aires, contou-me, enquanto nos dirigimos para o restaurante que tinha vindo passar o final do ano, com a familía, em Aveiro, donde era natural.

Tinhamos enfrentado os nossos olhares, mudos e silenciosos, durante as soturnas aulas de Geografia humana, onde acabara por ir parar por opção, em tempos, uma professora no liceu fizera com que passasse acreditar na possibilidade de exisitr uma geografia de carácter humano. Ela começara o curso de geografia, naquele ano, vinda da terra natal batizada como a Veneza de Portugal, durante o Estado Novo.  A Veneza de Portugal, repetia-te, e tu não gostavas, dizia-te que era defeito de historiador, mas tu, futura geógrafa pouco humana, amuavas. No bar da faculdade, manhã cedo, tropeçaramos na mesma mesa, pedi para sentar, anuis-te, olhando para os meus olhos. Os olhos, o olhar, foi durante todos estes anos o facto que, seguramente, me veio mais vezes à memória. Isso e as coxas. Mas essa é outra história. Naquela noite, ambos em trânsito, tu para Buenos Aires, enquanto eu de regresso, a greve dos controladores aéreos, marcada para daí a umas horas, acabaria por adiar o voo para a tarde do dia seguinte. Perguntei se me quererias seguir, que no outro dia te traria ao aeroporto, não tinha compromissos que não fossem inadiáveis. Ligas para casa dos teus pais para os colocar ao corrente, disseram-te que viriam ao teu encontro, recusas-te, dizendo que terias voo no dia seguinte, como contas-te. Fico a olhar para Ti, de pé, contra a multidão que se agitava, smart, na orelha, falando com os olhos.  Depois disses-te que sim, que seria bom, o facto do reencontro ter acontecido de forma inusitada, entre voos, chegadas e partidas, sabendo antecipadamente que a separação seria, de novo, inevitável. A palavra separação sempre fora o sinónimo dessa nossa estranha relação que havia durado quase um ano. Estavamos separados por tudo, tinha casado, de novo, recentemente, tu, que não gostavas de mim, era te veladamente antipático, passas-te a procurar-me, pelos corredores, fumavamos do mesmo cigarro, após aquela manhã em que descobriamos que existiamos. Viviamos separados, encontavamo-nos às escondidas, em locais improváveis, horas, a despropósito. Quando acabei o mestrado abandonei a faculdade definitivamente e a separação foi obrigatória. Percebemos isso bem, que seria até não sabermos mais que nos poderíamos voltar a encontrar. Ninguém iria atrás de ninguém. Naquela última tarde, que nos prometeramos antes da separação definitiva e combinada, na varanda do instituto, num dia de verão, que  debruçados sobre o jardim botânico, percebemos que afinal acabava. Sem email's, sem número de telemóvel, sem conversa. Ponto final. Obviamente que pensei em ti ao longos dos anos, embora já não viva lá, continuo a passar de quando, em quando. Passo pelos mesmos locais, os de sempre numa cidade pequena, que frequentavamos juntos. O café da praça, do outro lado, a pizzaria, o apartamento onde moravas, a tua janela. O lenço, o lenço que deixavas na janela a avisar que não estavas. Janelas, à frente, a daquela senhora que gostava muito de falar contigo, ela debruçada na janela, tu, no passeio. As memórias funcionam com antídoto contra o esquecimento. Isso, dissses-te, embora não te tenha sido fácil. Acabas te o curso nos anos seguintes e foste dar aulas para os Açores, de seguida. Voltas-te, fazer o mestrado, disses-te, era o teu projecto, mas a cidade já te era estranha. recordo me que nessa época fora morar para o litoral, onde trabalhava, mas nunca te abeiras-te deste litoral, estranha em tudo, nos hábitos, que já não eram os teus, nos costumes, como pode tudo mudar em tão pouco tempo

 disses-te.

publicado por carlosfreitas às 19:46

26
Nov 18

 

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 Buarcos, Novembro de 2018.

 

publicado por carlosfreitas às 04:00

13
Nov 18

Do lado esquerdo, o molhe norte, a Barra, o molhe sul, o Cabedelo, do outro lado, na Outra Margem, o Farol de Santa Catarina, a Torre do Relógio, no direito, Buarcos, a enseada, na maré vazia vê-se a rocha a que chamam "Medroa".

Boa parte das rochas que ficam a descoberto na baixa-mar,  tem um nome. Disseram-me.

A "Pedra Grande", é outra das pedras que já reconheço. Fica mais para lá, para o Cabo. 

Altas horas, ainda há luzes, lanternas, com mar calmo, junto à rebentação, ou então com pequenos barcos a motor, que pescam também por ali, os as ondas quebram.

Com o mar bravio, os pescadores de cana são raros a pescar no molhe norte mas, nas noites de verão, parecem pirilampos. 

Há noites de poalha, cola-se à areia e, mesmo assim, ainda se vêem as luzes dos navios, ancorados ao largo, aguardando pela entrada no porto e dos pilotos da barra que os levarão rio adentro, até lá acima, antes da ponte do Engenheiro Edgar.

Pouco mais acima da ponte velha, com sinaleiro, que ora mandava avançar de norte,  ora de sul, consoante a sua vontade e o seu ponto de vista. A espera prolongava-se, por vezes horas, só passava um carro de cada vez na ponte, gerando, por isso, no verão, longas filas de trânsito.

Ainda lá passei, nos ultimos tempos do sinaleiro da ponte-velha, de carro, ia-se então fazer campismo para a praia Cabedelo, uma nesga de areia entre molhes, protegida por enormes blocos, que afunilaram a água, em direcção à barra.

Um ermo, com uma praia belissima, um enorme barracão, que servia de restaurante e tudo o mais que o viajante quissesse, passávamos o verão por ali.

As pedras que restam do Fortim, que pugnaram na defesa da enseada de Buarcos, mandado construir no reinado de D. Miguel, e arrematado por quinhentos mil e cem reis, é a paisagem do outro lado. 

publicado por carlosfreitas às 02:45

 

 

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publicado por carlosfreitas às 01:35

Bill Perlmutter - Nazare, Portugal, 1956.jpgBill Perlmutter - Nazare, Portugal, 1956

publicado por carlosfreitas às 01:24

01
Nov 18

Tinham acabado de acender todas as torres de iluminação frente da Torre do Relógio, andava gente a passear com o cão às 10 da noite nos passadiços. Ao longe, as luzes de carros policiais circundavam uma zona onde, talvez de forma ilegal, estacionem ou deixam estacionar dezenas, ou talvez mais de uma centena,  de "roulottes", que, num espaço/estacionamento ali se encontram, algumas delas quase o ano inteiro, junto à Foz. Enconstadas ao início do molhe de norte.

Durante aquela soubera-se que o concerto anunciado, que uma fadista daria naquela noite no Centro de Artes e Espectáculos, não havia sido cancelado, nem bares e restaurantes, que normalmente se mantiveram na azáfama rotineira e os centros comerciais que se mantiveram abertos ao público. As próprias informações dos órgãos noticiosos eram vagas quer sobre a manifestação do furacão quer da sua aproximação à costa. Parecia que ninguém sabia de nada, ou não ia acontecer nada. Embora os alertas de mau tempo e a aproximação de uma tempestade tenham sido públicos e conhecidos alguns dias antes. O vento começou a fazer sentir-se, com intensidade, por volta das dez da noite. Fomos tirar os carros da avenida voltando logo para casa.  Já à varanda, pouco depois de chegarmos, começa a perceber-se, de repente, que a intensidade do vento aumentava de forma abrupta, entrou-se rapidamente em casa, fechando janela e   estore. Ficamos a meia hora seguinte atrás da janela a segura-la. Assim que se começou a sentir vento a abrandar viemos à rua. A estrutura de um pequeno restaurante de cozinha asiática que se estendia no passeio havia desaparecido, donos e clientes que se haviam recolhido, na parte incólume que fazia parte do prédio, estavam encostados ás janelas donde gritam e esbracejam. Cá fora estamos eu, o meu vizinho da Ucrânia e dois chineses começamos a retirar cadeiras do meio de uma amálgama de ferro retorcido. Tu abraças-te a Xau. Enquanto não chegas-te eu e o vizinho ucraniano fumamos um cigarro, cada um o seu. Os carros estavam lá. O vento ainda se fazia sentir e já havia luz. Mas estava escuro com o breu.

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publicado por carlosfreitas às 02:22

29
Out 18

Um dia levantei-me e parti,

aportei à cidade-mar.

onde é mar todos os dias

da janela enorme, vento irreal e o areal misturam-se hoje num só

como num postal

enquanto a avenida discorre lá em baixo

ao som do carro que passa, da criança que palra

os andorinhões tem voltado sempre ao fim do dia e cruzam os beirais em voo artistico

as pequenas rolas pousam no poste frente da casa

o sol sai pela linha do horizonte

hoje as ondas são brancas.

gaivotas pousadas nas areias

a bandeira flutua, na Torre, com o vento do norte, 

um dia quando for ainda mais pequeno construo um barco em lata

para ir ao teu encontro.

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publicado por carlosfreitas às 13:34

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