04
Mai 14

 

 

O meu pai anda com a mania que é marisco

 

 

Os pais são bestialmente difíceis de entender e quem disser o contrário ou é orfão ou precisa de fósforo porque há coisas há coisas que toda a gente sabe mesmo os burros e uma dessas é esta dos pais serem bestialmente difíceis de entender o meu por exemplo que se calhar nem é dos piores é tão difícil de entender que ás vezes até me pergunto se ele não terá caído ao chão em pequenino sem ninguém saber agora por exemplo anda com medo de ser mexilhão e não fala noutra coisa na sexta-feira dei por ele a conversar com o senhor Silva do talho que é um que tem dois matadouros clandestinos e que vende carne tão esquisita que mesmo quando é vendida à peça parece picada e pus-me à escuta para ouvir o que eles diziam palavra que eu ainda estou gaga o tal silva dizia assim: isto vai de mal a pior meu amigo sim que se não metem o povo na ordem isto acaba mal então não querem lá ver que no outro dia veio aqui um pobre-diabo que nem para sabão ganha dinheiro porque lá em casa passa a chamar ladrão ao Silva e teve a lata de me dizer que a minha carne não prestava? A minha carne! Pensei que o meu pai ia concordar com tal pobre-diabo sem sabão porque lá em casa passa a vida a chamar ladrão ao Silva mas não senhor voltou-se para ele e disse-lhe o senhor Silva tem toda a razão olhe que eu ainda hoje disse lá no trabalho que se não metem o povo na ordem isto caba mal fiquei de boca aberta a olhar para ele palavra que fiquei pois daí a bocadinho estávamos os dois sentados num banco de jardim ao pé do lago para o meu pai ler o jornal por cima do ombro dum senhor que o tinha acabado de comprar e vai chegou-se a nós o senhor Carlos da capelista que é o homem mais lido da Graça e disse-lhe assim o senhor sabe o que nos está a tramar a vida sabe? pois fique sabendo que é não deixarem o povo fazer o que quer porque ninguém brinca com o povo, olhe meu amigo se o povo cá da Graça mandasse o Silva do talho já tinha ido ao ar porque esse bandido não vende senão carne podre preparei-me para ouvir o meu pai discutir porque não ainda cinco minutos antes o tinha ouvido falar com o Silva mas sabem o que ele disse sabem? pois se não sabem fiquem sabendo que se voltou para o senhor Carlos da capelista e disse tem toda a razão toda meu amigo olhe que ainda hoje lá no trabalho estive a dizer que o mal disto tudo era o povo não puder o que quer palavra que fiquei sem fala mais caladinha que um mudo sem boca e vai daí a bocadinho quando o senhor Carlos partiu para ir pregar para outra freguesia virei-me para o meu pai e perguntei-lhe oiça lá você é por o povo fazer o que quer ou é por o povo não fazer o que quer? e vai ele virou-se para mim e disse esta coisa que ninguém entende quando o mar bate rocha quem se lixa é o mexilhão fiquei logo a pensar que ele estava era maluco de todo e que o melhor era eu ir chamar a minha mãe sim porque já lhe tem dado para ser comerciante vendedor de propriedades angariador de publicidade e mais uma data de coisas que acabam por ele nunca conseguir vender nada mas nunca lhe tinha dado para ser marisco e com o negócio do peixe como está se lhe dava para continuar com a mania de ser mexilhão lá ficávamos sem a televisão como aconteceu daquela vez que lhe deu para andar de porta em porta cá na Graça a vender apartamentos no Algarve enfim daí a bocadinho íamos a caminho de casa e o meu pai esbarrou com o senhor Eusébio que é do partido socialista e que lhe disse então meu amigo como anda? cheio de esperança na vitória cá do partido ou quê? e vai ele respondeu com toda a lata tenho-a por certa senhor Eusébio isto está tão certo como dois e dois seram quatro já quase a chegarmos a casa demos com o senhor Adalberto da pastelaria que é do partido comunista que lhe disse ao ouvido estão desta vez é que vai camarada? e vai ele respondeu com toda a lata já cá canta camarada Adalberto isto desta vez não falha e mesmo à porta de casa esbarrámos com o antigo chefe Roberto que agora trabalha na funerária e que lhe segredou muito baixinho o amigo não desespere que isto já se começou a organizar é só esperar e vai ele respondeu não espero outra coisa senhor Roberto olhe que não espero outra coisa palavra que é de uma pessoa ficar doida quando íamos a subir a escada perguntei-lhe oiça lá de que partido é você? e vai ele respondeu com toda a lata quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão como se fosse natural um homem da idade do meu pai com uma filha crescida e responsabilidades na vida andar com a mania que é marisco.

 

 

Luís Sttau Monteiro, em "A Mosca", suplemento do Diário de Lisboa, 8 de Julho 1974.


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Carlos Freitas Almeida Nunes
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