06
Ago 12

 

 

"Convencido de que os espelhos das montras não eram verdadeiros, quis ter em casa espelhos sinceros, quer dizer espelhos perfeitos, de um aço irreprovável, capazes exprimir o rosto integralmente, até à menor nuance. E, como o testemunho de que um só não seria suficiente, não provava nada, ele quis muitos, outros mais, onde sem cessar se olhava, comparava e se confrontava. Um gosto crescente por ricos espelhos veio-lhe, por ódio desses espelhos pobres das montras, espelhos hipócritas, espelhos doentes que o fizeram crer que estivesse doente. Começou por causa disso, sem dúvida, uma colecção…
(…)"

 

“O Amigo dos Espelhos” de Georges Rodenbach.(*)

 

 

    Tudo isto a propósito de uma velha conversa reactivada aparententemente pelo pequeno espaço de um texto cómico, que talvez de tão certeiro alguém nele se terá visto reflectido.  Vai daí, da velha chispa, chove e irrompe em perorar o que dentro possui, restos de fel ressequidos pela falta de memória, que se encarrega de ordenar da forma que assaz convém e cuja essência disfarça usando o espelho. Este, o espelho, refulge quando nele aparece únicamente a sua figura.

    Ah! espelho meu, espelho meu, se dissesses toda a verdade e não apenas o que o espelho reflecte serias mais perspicaz e avisado do que esse acto de reflectires apenas o que desejas e convém. 

    Prefiro imaginar uma moeda, cujas ambas as faces, reflectem quase todos os seres humanos, tal e qual são. Nada sobra de fel, nem de ressabiamento, nem de hipocrisia, nem de tempo perdido, porque o tempo ensina, sou tão alguém quanto quem me pensa sendo alguém. O meu lamento não é por mim, sobrevivi, eu sapo(**), apesar do veneno, cheguei à outra margem do rio, cambaleante e ferido, mas confiante. A hipocrisia de que sou possuido e a minha falta de caracter permanente assume-se perante figuras e gente que se lamenta dos erros que comete. Quanto ao canudo, paguei-o, conseguido sem artifícios, nem cunhas, e faço dele o uso que é comum para gente da sua estirpe. Passar bem.

 

 

(*) gosto de colocar o autor, não por ser doutor, mas por achar que o que não faço e tem autor, ao autor é devido.

(**) http://www.fabulasecontos.com.br/?pg=descricao&id=106. Alguém um dia me mostrou esta fábula deliciosa, a tempo de evitar males maiores. Obrigada.

 

 

publicado por carlosfreitas às 13:18

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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