03
Mar 10

 

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Escrevo como sempre, sem rumo, como se isso de ter rumo perfeitamente definido tenha valor absoluto. O teclado discorre ao sabor do momento, ele, como eu, pouco preocupados em cavalgar ondas do momento. Dizem-me, quase sempre, ou sempre e apenas do contra. Sem jeito nem beira. Talvez.  Sempre do contra como se essa fosse a única glória que ostento. Mas não sou do únicamente do contra, sou apenas protestante. Mais um. Definição que só mais íntimos do círculo restrito, sabem porque me digo e assumo protestante. Sou deste modo assim desde menino. Deixem-me continuar. Deixem lá. É apenas um protesto sem grandes consequências de alguém vindo do mais baixo que a escala social pode abranger. Talvez por isso a vacuidade predominante e ruminante observe isso como consequência e fruto de um mero querer ser diferente. Mas não. A gente é aquilo que lê e pensa. E ontem, como hoje, lia assim:

 

" Aquela «fidelidade de vassalo» se produziu formosos lances de galhardia individual, denuncia socialmente um mal gravíssimo: a estrutura cavaleiresca da sociedade portuguesa, visceral imperfeição da nossa estirpe; a assiduidade dos pretendentes no Terreiro do Paço é hoje a forma degenerativa dessa antiga fidelidade; e assim não vemos que exaltar a fidelidade do vassalo e condenar ao mesmo tempo A monarquia absoluta é contra-senso rematado,  pois são os ditos fiéis vassalos que geram os reis absolutos; contra-senso em que caímos porque, como escravos revoltados, vemos na liberdade um presente que nos dão ou que nos tiram, não uma virtude do nosso espírito que criamos diáriamente ou diariamente abandonamos...

Aos fidelíssimos vassalos, leitor amigo,

                              Que até na injustiça            querem

                 Dar a vida pelo rei,

poderíamos chamar em prosa chã, e segundo a delicadeza do teu ouvido, os fregueses, os lambareiros ou os parasitas da gamela pública, como são os partidários mais fiéis dos chefes políticos hoje em dia. «Comendas», direitos reais, etc. enchiam a gamela absolutista; enchem a gamela liberal as várias formas complicadas do carneiro com batatas. Todos pretendiam ser de El-Rei, e todos pretendem ser do Estado; as formas variam, as almas ficam..."

 

António Sérgio em Educação Cívica, 1915

É aquilo que penso e fica assim.

 

publicado por carlosfreitas às 12:38

O oportunismo é a única linha condutora entre todos os sistemas, entre todos os regimes. E os portugueses fazem galhardia da capacidade de serem oportunos. De resto os políticos são generosos em encher-lhes a gamela, que nunca muda, independentemente de todas as cabeças que rolem. Esperemos que continue a engordar, que coma bem, este portuguesinho sério, tecnocrata e careca, que coma até quase não conseguir apertar o aventalzinho da loja até, das duas uma, ou estourar, ou esvair-se naquilo que sabe melhor produzir diariamente.
Nuno Resende a 3 de Março de 2010 às 21:16

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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