18
Jan 10

 

 

CANÇÃO DE UMA SOMBRA

Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das cousas,
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós, cantava e que secou ...
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse este luar que chama
Os aspectos à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou.

Teixeira de Pascoaes

publicado por carlosfreitas às 02:57

poema muito bonito!!!
Sandra Afonso a 19 de Janeiro de 2010 às 13:01

Os autores portugueses é que agradecem. Nós apenas fazemos o nosso pequeno trabalho, divulgando, consoante o gosto e o momento. Teixeira de Pascoais é um autor que deve ser mantido em contacto com os portugueses que assim podem passar a conhece-lo como ele merece. Obrigada pela sua vinda às profundezas da blogoesfera.
carlosfreitas a 20 de Janeiro de 2010 às 20:20

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