05
Jan 10

Lento observador da realidade que circunda vou dando conta que a blogoesfera portuguesa se reorganiza. Opta agora por juntar-se em blogues multi-disciplinares, onde se movimentam diversas indoles pessoais, embora devidamente enformados politicamente ou culturalmente. Aparentemente tal aconteceu no Verão passado. Os blogues e os blogueres cada vez mais menos anónimos, o que é capaz de querer assinalar que a cidadania lentamente se instala, cada vez mais menos solitários, o que demonstra cabalmente o quão tende para o gregarismo a sociedade humana. A necessidade de sobrevivência (é disso mesmo que se trata) tende para a reunião descartando o individual. Assim pega-se numa qualquer plataforma, juntam-se vários comentadores ou blogueres, misturam-se bem os ingredientes, procurando atrair e fidelizar público leitor como, em outros tempos, o faziam nos jornais. Estes surgem agora como uma espécie de revistas culturais diárias ou não, cuja pretensão última é a de ocupar espaço na rede e redimensionando aqui o papel dos médias tradicionais. Sendo a opção respeitável, não proponho sequer transformar-me num defensor de qualquer tipo de pureza blogo/esférica, nem desta ser guardião, dou contudo nota da evolução. Assinalo-a como um facto de pormenor. Importante para alguns, menos para outros. Contudo reveste-se de alguma importância. Do comentário, à noticia sobre determinado assunto, os blogues colectivos erguem-se como os grandes adversários do jornalismo tradicional, do jornalismo impresso. O filme Stat Of Play onde Russel Crowe protagoniza o velho jornalista de investigação, numa imagem muito estereotipada do fumador inveterado, levemente alcoolizado e genialmente desorganizado pretende mostrar, entre outras coisas mais interessantes, o recente e já à muito anunciado embate entre esses dois mundos, através da ligação com a jovem editora da página on-line do jornal, num esforço último de imagem poética do jornalismo e dos média tradicionais que pretende conjugar dois mundos aparentemente antagónicos. Os blogues, que começaram por ser diário pessoal, por vezes intímo e muitas vezes anónimo, também eles tem os dias contados. A blogoesfera é também ela, cada vez mais, uma máquina onde se pode vir a ganhar dinheiro ou obter algum lucro com uma actividade que começou por ser individual e que o hábito e a qualidade, de alguns dos intervenientes, vão dando fama e proveito. Através desta espécie de revistas cor-de-rosa (estas no formato impresso continuam de boa saúde, como é sabido) onde se procura aliar o útil ao agradável a blogoesfera avança em direcção ao futuro. Mundo onde o individual tem cada vez menos espaço de ser ou de aparecer. Talvez um mundo em extinção. Escrevi talvez. O bloguer solitário  é já uma imagem que se desvanece na bruma das novas tendências.

publicado por carlosfreitas às 00:10

Um bom filme, este que refere. Já o vi no cinema e, sem dúvida, deixa-nos a pensar para onde caminha a imprensa de investigação. Sobretudo a nossa, em que a maioria de títulos estão centralizados numa holding ou outra porra qualquer. Isto é, consegue imaginar-se pedir a um jornalista de um destes títulos para investiguar um determinado assunto referente a uma destas empresas? Vou ser mais claro: por exemplo o filme "Avatar" está entrar descaradamente no bolso de todos os cinéfilos, com a cobrança de uns óculos em plástico não reutilizáveis. Poderemos imaginar o JN ou o DN a aflorar este assunto? Penso que agora consegui ser menos dogmático.
Abraço e obrigado. Continuo a gostar da forma como escreve.
Luís Fernandes a 6 de Janeiro de 2010 às 12:59

O jornalismo de investigação é área demasiado perigosa para que tenha muitos cultores. Os poucos sabem quanto isto é verdade. O centralismo na ou nas grandes holdings de comunicação de boa parte ou até já da grande maioria da imprensa escrita e radiofónica portuguesa começa agora a penetrar com mais esmero na rede. A blogoesfera , embora não seja propriedade de ninguém, começa a sofrer com essa tentativa de controle e de reacção pró-activa por parte de jornalistas e holdings de comunicação. No meu caso enquanto me der gozo continuarei a escrever e a falar sobre o que me der na real gana. Por outro lado vou seguindo atentamente no seu blogue alguns dos aspectos da cidade e de uma zona que faz parte da minha memória enquanto habitante de Coimbra. Eu é que agradeço. Quanto a "Avatar" já me basta ter que aturar o meu. basta pensar que a versão mostrada nas salas foi censurada. A versão em DVD traz o filme completo. Quando souber qual a parte censurada da película em exibição nas salas irá perceber porquê. E, se calhar, fará, como fiz, um sorriso amarelo. Uma simples e mera relação sexual entre os principais personagens da história foi cortada do filme em exibição nas salas. O corte facilitou a possibilidade de o filme ser considerado na classificação como um filme familiar, possibilitando desta forma um maior acesso às bilheteiras. Com a cena incluída seria mais problemático atingir esse objectivo. Como sabe o ser humano não se reproduz através de relações sexuais. E seres alígenas muito menos, embora estes inicialmente fossem humanos. E o cinema é uma ilusão. Como sabe. Embora nem todo. Os americanos para além da arte de fazer bom cinema também sabem gerir a indústria que inventaram. Ora esse corte leva-me a pensar que deixei de saber como é que as famílias se reproduzem e, ao vê-las a entrar nas salas de cinema levando atrás de si a prole, começo a duvidar que estas tenham surgido de uma relação sexual entre dois progenitores, se é que me entende. Deve ser através de avatares aligenas No meu tempo era a cegonha que vinha de Paris. Um Abraço para o Luís.
carlosfreitas a 6 de Janeiro de 2010 às 23:18

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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