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Dez 09

 

 

Aparentemente, pelo que observo entre os diversos inquéritos de opinião, a esmo um pouco por todo parte, muitos dos meus compatriotas conhecem a razão das comemorações que estão na origem do feriado de 1 de Dezembro. Embora as razões, liofilizadas pelo historicismo do Estado Novo,  pouco ou nada tenham que ver com a realidade contemporânea. Nela reparo que os monárquicos portugueses, convictos, se deviam congratular com a nossa dependência económica actual, a fórmula de anexação do século XXI, do execrável regime político espanhol. Ao comemorar a morte do conde andeiro apenas estaremos a dar vivas aos novos condes de andeiro. Com a subtileza do elefante numa loja de louça observo esse ressurgir de condes e viscondes de dá cá aquela palha nesta província espanhola onde habito. O retornar de definições sanguíneas e terra tenentes entre essa pseudo aristocracia do Condado Portucalense, recorrendo a velhas fórmulas de distinção social, demonstram claramente que pouco mais tem a que se agarrar do que a designações abolidas à quase um século. Permitir que isso aconteça é desacreditar os valores que estiveram na origem da Restauração. Comemorar a Restauração é simplesmente hoje um acto de hipocrisia efectivada por um regime enredado em múltiplas contradições históricas e sociais. Resguardemos a memória mas não se oculte as contradições de 1640 e as de 2009. A revolta foi popular, iniciada em Évora, cidade onde se deixou de respeitar os filhos de algo e a própria hierarquia religiosa, por sinal a mesma que vigorava nos dois lados da antiga fronteira. Revolução incendiada pelo aumento de impostos,  o detonador da recomposição das monarquias ibéricas. Realçar a importância da acção popular é pois tão ou mais importante que apenas comemorar um feriado com profundas raízes no ideário da monarquia e dos seus actuais defensores. Fazê-lo é apenas, e só, a mera constatação de que são os esquecidos da História que fazem com que o mundo se mova. E essa é a prova que não existem habsburgos, nem braganças, que dominem para sempre. Entretanto o povo aclama o poder restaurado. Afinal que pode fazer mais um povo. Acreditar que o novo poder será diferente do anterior. Grave erro, como se sabe. O problema é que os deserdados da História passam a vida a lutar contra as dominações. De geração em geração. Ontem e hoje.

publicado por carlosfreitas às 14:26

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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