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Nov 09

António Sérgio

No rádio do carro ligado, quando ele ainda trabalhava em rádios que abrangiam o espectro nacional ou quando, mais novo, passei a querer conhecer outros mundos musicais no interior da música rock, agora dita alternativa ou post-rock, muito para além do que nos era imposto pelo duvidoso gosto do comércio editorial português e da sua imensa miopia, implicava quase sempre, evitando a poderosa influência económica que as editoras de então detinham no pequeno círculo das rádios da capital, sintonizar os seus programas numa qualquer telefonia. O lema e o tema era o "Som da Frente". Depois fui perdendo o rasto ao António Sérgio na medida em que ele não se vendia e foi sendo arredado das grandes audiências nacionais. Perdi o rasto mas não esse gosto especial incutido e a vontade de procurar para além do óbvio que, com ele, aprendi ao longo de centenas de horas de audição. Sempre à noite. A noite era a "Hora do Lobo". Compreendam que não foi assim há tanto tempo que a rádio era o único território possível para quem, como eu, queria ouvir música. Foi através de António Sérgio que ouvi em primeira mão uns então completamente desconhecidos U2, que naquele ano viriam dar um concerto a Vilar de Mouros. Concerto cujos bilhetes foram pouco freneticamente perseguidos e disputados embora a qualidade e a novidade que música da banda transportava então seja muito superior à da actualidade.

Tenho, para além da memória auditiva, a percepção, nas poucas vezes que ele surgiu no pequeno écran, que a franzina figura de António Sérgio se impunha não apenas pela voz, carismática e portentosa, mas igualmente pela imensa paixão que colocava na divulgação do que era novo e diferente no rock contemporâneo. Receber a notícia da sua partida para onde flutuam as ondas hertzianas num merdoso dia de chuva deixa-me cabisbaixo e soturno.

publicado por carlosfreitas às 16:38

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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