13
Out 09

 

Falam-me de estar instituída a falta de referências, (ou bem pelo contrário, a sua substituição, segundo o meu ponto de vista), que, segundo me dizem, é um fenómeno (que me parece que não é novo) que grassa entre as gerações mais novas. Ideia, ou sensação, com a qual não concordo. Esta, assinale-se, surge, muitas vezes, difundida em conjunto com a falta de leitura ou leituras entre as gerações mais novas. Face ao nível de bombardeamento a que contemporaneamente estamos sujeitos (mais novos e menos novos), que não permite tempo para distinguir, para saborear, para intuir, esse sim é um fenómeno novo e com o qual ainda não aprendemos a lidar. No fundo, para reflectir sobre a contemporaneidade precisamos de tempo, de uma velocidade mais lenta, que hoje parece já não existir. A velocidade agora imposta revela-se avassaladora. Relembro que já me inclui na geração dita mais nova. E não me esqueci que alguns dos valores então sugeridos me pareceram demasiado hipócritas ou que, outros, vim a reparar nisso mais tarde, tinham a sua razão de ser e de existir. A passagem do tempo permitiu-me duas coisas: em primeiro lugar, deu-me o tempo necessário para confrontar; em segundo, permitiu que, da confrontação, tenha nascido a capacidade de distrinça e de escolha de forma mais livre. Afastou a possibilidade de conjugar frases ocas ou inutéis. Contudo acredito, cada vez mais, que a cultura de agressividade, de individualismo e de exacerbado relativismo, que, repito, podemos hoje observar com maior nitidez, pode tornar-se verdadeiramente explosiva. O meio torna-se egoísta, as pessoas, por sua vez, assumem uma postura egocêntrica. Pressupostos, com os quais muitos podem não concordar, mas estes partem do meu grau de observação, do meu ponto de vista, doutra forma não o poderia escrever. Tive, contudo, o extremo cuidado para que esta reflexão, partisse de pressupostos verificáveis. De um ponto de vista, histórico, ela começa com uma pergunta: teremos sido nós os propulsores destes pressupostos que a nossa reflexão sobre o quotidiano nos permite divisar? Pergunta à qual responderia claramente que sim e que talvez não. Apenas aparentemente a resposta é ambigua. Porque pressupõe que se pode estar perante uma fase de reposicionamento que permitirá avançar noutra, ou noutras, direcções. Caminhos, que embora possam ser divisados, ainda fazem parte de uma imensa incógnita. Uns estão a ser impostos a partir do exterior, outros, de forma inconsciente, talvez, sejam auto-impostos. Deste modo a responsabilidade sobre este fenómeno pode ser repartida. Históricamente é isso o futuro. Uma incognita, uma variável, que permite afirmar que se o passado era imperfeito, o futuro dificilmente será melhor. O que torna o passado, aos olhos dos historiadores, algo de belo é esse seu grau imperfectivel, o que nos permite afirmar que o futuro, a escatologia, será inexorávelmente igual ao passado. Algo impossivel de ser perfeito. Gostaria de ser menos pessimista, mas a simples história de um caroço que li por aí à dias não me permite vaticinar que o futuro seja melhor que o passado. O passado foi lá atrás, como dizem os Xutos, mas esse é um pontapé dificil de conjugar com os desafios que temos pela frente. A não ser que demos um pontapé no futuro. Não é uma má ideia. Esse pode vir a ser a cereja.

publicado por carlosfreitas às 09:49

eXTReMe Tracker
Carlos Freitas Almeida Nunes
pesquisar
 
pesquisar
 
arquivos
RSS
blogs SAPO