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Out 09

 

Nascido em meados do século passado apenas vi nascer a República em 1974. Dai que, pessoalmente, hoje me seja estranha a sanha monárquica sobre a instituição da República em 1910. A Monarquia em 1910, cuja implantação derivava de oitocentos anos de muitas fantasias, algumas destas serão alimentadas ao longo do século XX, durante o regime que  assentou no carisma de um homem, a quem os monárquicos, na devida altura, teceram todas as loas que se conhecem, incluindo o beija-mão, estava completamente exangue. Se no começo do século XIX se pode aceitar que monarquia portuguesa soube compreender os ventos da História a reboque dos exércitos napoleónicos, pois percebera o fim de uma época. Segundo consta, Napoleão, para gáudio dos actuais defensores da monarquia, no decurso seu último exílio em Santa Helena, declarara sobre o rei português em fuga, que governava em nome da mãe, que enlouquecera, considerado por isso entre os seus pares como inepto para o cargo, porque não havia sido ensinado a governar, que teria sido o único que o soubera enganar. O engano, traçado e imposto pelos ingleses, consumava-se na fuga da família real, portuguesa da alta aristocracia e da magistratura para a então colónia do Brasil. A fuga deixaria para trás um país e súbditos, e um remoque de governo, a que se chamou "Regência", entregues às sanguinárias atrocidades dos exércitos napoleónicos e ao sabor da política inglesa da época. Fugia a corte portuguesa para o único e último paraíso que sustentava as megalomanias de uma corte sem projecto e sem rumo. O absolutismo real extinguia-se e a monarquia nacional não se adaptou a viver fora das estruturas antigas da sociedade portuguesa. O caso de D.Miguel é disso exemplo notório. O retorno ao tempo nostálgico levou à derrota. O Liberalismo monárquico compreendera finalmente a ascensão da inepta e inerte burguesia nacional. Foi aí que foi derrotada a monarquia e não em 1910. Os poucos anos da Primeira República são hoje encarados, por poucos, como o caminho que levou Portugal à decadência. Por culpa dos republicanos que pretenderam, de forma sumária por fim a velhas, arreigadas e arcaicas estruturas mentais e sociais. Mas também podem os monárquicos arcar com responsabilidades pois contribuíram para arrastar o país para uma ditadura exercida em nome pessoal e disfarçada de Estado Novo. A República Portuguesa, essa continuará a trilhar o seu caminho pois ainda lhe faltam setecentos anos para ser julgada.

 

(post sriptum)

Quanto à questão da propalada realização de um referendo, agradecia que os promotores indicassem quem pretendem ter como rei. Prefiro que na República de Portugal se referende a ascensão de Tony Blair a Presidente da Europa. É questão mais actual e de repercussões ainda pouco explicadas. Se tal suceder teremos pela frente um novo Napoleão, ou na melhor tradição inglesa um novo Lord Nelson. Com a agravante de que já não poderemos fugir, com o mesmo estatuto, para nenhuma das antigas possessões.

publicado por carlosfreitas às 12:55

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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