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Jul 09

 

Peço desculpa pelo texto estar em francês, não porque não o saiba traduzir, apenas porque defendo que um texto deve ser lido, se possível, na linguá original, na língua em que foi pensado e escrito. Abstenho-me assim de ser "engolido" na inevitabilidade da anglofilia actual e continuar a ser um dos alguns que não sujeitam a língua inglesa à universalidade.. Por muito que tal possa ser inevitável hoje, poderá não sê-lo amanhã. O texto, donde transcreve um pequeno trecho, do historiador François Ploux, analisa em grande medida a estruturação e as relações do poder político na região "Quercy" durante o século XIX.

 

"Le 18 octobre de 1870, le préfet du Lot, s' adressant à Gambetta pour lui rendre compte de la situation politique du département, observe qu' " `l'heure pr´sent, il y a dans presque toutesles localités deux partis, comme cela a été toujours de tous temps, dont l'un est au pouvoir, c'est à dire forme la commission municipale, et donc l?l?autre est en dehors"(1). Ce fonctionaire exagère à peine lorsqu'il décrit la polarisation des communautés rurales en deux factions rivales comme un phénomène quasi struturel (2). Depuis les luttes religiuses de la période revolutionnaire lorsque, dans toutes les paroisses du dioocèse, les partisans du curé réfractaire affronttaient ceux du prête assermenté (3) jusqu'aux premières décennies de la Troisième République, cette forme de conflictualité apparait comme l'une des dimensions fondamentales de la vie des communautés rurales.

Cette proprension des groupes villageois à la division factionnelle n'est d'ailleurs pas spécifique au Quercy. Elle paraît surtout caractérisér les campagnes du Midi, où les rivalités entre notables débouchent plus systématiquement qu'ailleurs sur l'agrégation de partis plus ou moins stables (4). C'est ce qu'ont mis en évidence des tarvaux consacrés à la Provence ou au Languedoc de la fin de l'Ancien Régime (5). Au XIXé siècle, la bipartition de la communauté villageoise est suffisamment familière aux paysans des Pyrénés audoises pour que les notions de "parti" et de "contre-parti" soient inscrites dans le parler courant (6). Mais c'est dans les village corse que l'opposition des factions rivales (on parle ici de "partitu et de contrapartitu" prende véritablemment la dimension d'un fait de structure (7)"

 

Partindo deste excerto,  pensando agora em português, o que se assiste, no país, pequeno, cuja organização do Estado se mantém assente na bipolarização referida e que se arrasta desde o século XIX, reflecte por um lado o estado interno actual, abstendo os reflexos da crise que externa necessariamente se reproduziria internamente devidos aos problemas estruturais de um pais que, por mais debatidos e analisados que sejam, se mantém quase como uma longa estrutura. Implica a dimensão bipolar entranhada no subconsciente  da população. O problema reside por isso no interior dos partidos, irão retorquir que os partidos são organismos necessários à vida publica, mas isso é outra discussão. São precisamente estes partidos, cuja ancilose das propostas  impede que a população integre no imaginário novas possibilidades de governo e novos governantes, que repercutem a tradição. O interior do círculo, dentro do qual todos os partidos actuais interagem entre si, reforçam a fórmula corsa, citada acima, de "partitu e contrapartitu", ou seja de partido (no poder) e contrapartida (a oposição) que enrredam e enovelam a possibilidade da sociedade progredir em novas direcções e acreditar em diferentes possibilidades de governo. Democraticamente estamos em pleno século XIX,  ao qual os partidos do espectro político português ficaram estruturalmente presos. A democracia portuguesa ressente-se disso, a sociedade, os paisanos, pouco ou nada lhes interessa quem os governa, os seus desvarios, as suas protecções, as suas gafes, interessa-lhes o escândalo relatado até ao esquecimento. Interessa-lhes fintar o poder para sobreviver, como na epopeia de Robin Wood e do Xerife de Nottingham. Alheia ao miasma que se liberta da classe política de Lisboa que se repercute nos seus representantes nas aldeias vilas e pequenas cidades do país. Um simples exemplo de uma região francesa,  aparentemente obscura para muitos de nós, serve de exemplo para perceber uma parte do Portugal do século XXI. Não precisava de ir muito longe, mas é na perspectiva que se lê melhor o país onde vivemos e as nossas próprias idiossincrasias.

 

(1) Le Préfet au ministre de l'Interieur, 18 Octobre, Archives Nationales [ A.N.] F1b II Lot 12.

(2) Pour la première moitié du siècle, voir  Ploux (F.), Guerres paysanes au Quercy. Violence, Conciliations et repression pénale dans les campagnes du Lot, Paris, La Boutique de l?l?Histoire, 2002, et «Luttes de factions à la campagne. L'exemple du Lot aux XIXe siècle», l?Histoire et Societès rurales, nº 22, 2nd semestre 2004, p. 103-194.

(3)Sol (E.), La Revolution en Query, Paris, Librarie August Picard, 1932, t II, p. 95-115 et 199-235.

(4) La fréquence de luttes factionneles dans la France du Sud A sans doute quelque chose à voir avec les poids du clientélisme dans les rapports sociaux. Maurice Agulhon évoque l'existance de «pays à tradition bipartisane séculaire»: Agulhon (M.) et Bondiguel (M.), Les Associations au village, Le Paradou, Actes Sud, 1981, p. 38.

(5) Agulhon (M.), La vie sociale en Provence interieure au lendemais de la Revolution, Paris, Société des Études Robespierristes, 1970, p. 229-235; Fournier (G.), Democratie et viemunicipale en Languedoc du millieu du XVIIIe siècle au debut du XIXe siècle, Toulouse, Association Les Amies des Archives de la Haute-Garonne, 1994.

(6)Thibon (CH.), Pays de Sauls. Les Pyrénnés audoises au XIXe siècle. Les villages et L'Etat, CNRS, 1998.

(7) Briquet (J.-L.), La tradition en mouvement. Clientelisme et politique en Corse, Belin, 1997. Voir aussi Lenclud (G.), «Le systéme des clans en Corse», Études rurales, nº 101-102, janvier-juin 1986, p. 137-173.

O enxerto do texto de François Ploux pode ser lido em  Imaginaire et sensibilités au XIXe siècle. Études pour Alain Corbin. sous la direction d' Anne-Emanuelle DeMartini et Dominique Kalifa, Paris, Editions Créaphis, 2005. p. 12.

 

publicado por carlosfreitas às 12:22

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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