03
Mar 09

Camilo Castelo Branco, um quase desconhecido escritor português, esteve preso, por via de factos que agora aqui não interessa esmiuçar. Dá entrada na Cadeia da Relação do Porto no dia 1 de Outubro de 1860. Preso, nem assim a pena deixou de preencher o recato das horas de clausura, de certo, e de quase certo, que  o homem não sabia exercer outro mester manual que o de verter no papel, palavras, que depois vendia. Embora arte que pouco lhe rendia, embora trabalhasse como desalmado.São sua pertença algumas das mais sábias palavras que a nossa literatura produziu. Alguns dirão que é exagero. Exagero de amador. E porque não.  Mestre Camilo, porque mestre é aquele com quem se aprende, a quem se pede que apenas deixe ouvir as palavras para saber, apostado em apostilar o que  os corredores de uma prisão portuguesa do século XIX, exalavam de infecto, deixando registo dessas memórias. Se são verdade, não o sabemos. A arte de Camilo era essa, iludir para desmascarar. A páginas tantas...

"Estava lá outro preso , menos santo, mas muito mais inocente, condenado em quinze anos de degredo para Cabo Verde. Era o senhor Gouveia, do concelho de Armamar. Fora regedor na sua terra, negociante e proprietário. O funcionalismo administrativo fez-lhe tomar pendor em partidos, e distinguir-se por seu zelo em lutas eleitorais. Numa dessas crises da urna, que algum tempo foram verdadeiras calamidades de rancor fratricidas, o senhor Gouveia foi falsamente indiciado numa tentativa de morte, julgado e sentenciado em três anos de prisão. O Ministério Público agravou, e a parte também. Era a parte um sujeito rico, abalizado entre os poderosos, e caprichoso no inteiro perdimento do inimigo político. O processo, examinado pelos juízes da Relação, deu em resultado a confirmação da pena; porém, o juiz, relator, quando o acórdão já estava em poder do escrivão, chamou a si os feitos, rasgou a lauda em que lavrara o acordão, e lavrou de novo outro, alterando a pena a quinze anos de degredo. A este tempo já as testemunhas que tinham jurado contra o senhor Gouveia estavam condenadas a galés, por terem jurado falso. Pensava o preso que,  aduzida tão significatica prova da sua inocência, o Supremo Tribunal de justiça anularia o processo. Nem assim. A última instância negou-lhe provimento. Gouveia foi para o desterro, depois de cinco anos de cárcere, completa perda de seus haveres, e trinta e oito anos de idade, com os cabelos todos brancos."

 

Memórias do Cárcere, Camilo Castelo Branco


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Carlos Freitas Almeida Nunes
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