30
Nov 08

 

 

Pareceu-me sempre muito estranha a vida sem uma utopiazinha. Pequena que seja. Simplória. Mesmo pequena. A saga das anedotas sobre a ex-União Soviética parece-me ser caso de pequenas utopiazinhas desfeitas. Com o tempo e com o apagar dos sonhos. Derrotas e outros escandalos. Tudo bem, cada um com a sua. Para completar esse rol imenso falta no entanto esta. A que conto de seguida.

   Certo dia um figueirense decidiu por sua conta e risco observar o que se passava na realidade e visitar a U.R.S.S. Saturado da propaganda pró e contra o sistema comunista decidiu partir de combóio em direcção a Moscovo. Na estação ferroviária da Figueira abeirou-se da bilheteira e pede:

- Um bilhete de ida e volta para Moscovo, se faz favor.

A resposta do funcionário da companhia dos caminhos de ferro foi feita em voz sumida:

- Agradecia que não pronunciasse esse nome, pode ser denunciado. As paredes tem ouvidos. De qualquer maneira não temos bilhetes para essa cidade. Podemos apenas vender-lhe um bilhete para Vilar Formoso. Depois lá entenda-se com os espanhóis, se eles lhe venderem o bilhete é lá com eles.

Começava bem a viagem, comentou o nosso homem, em voz igualmente sumida.

Assim foi até Vilar Formoso. Uma vez ali chegado e já na zona espanhola pediu igualmente um bilhete para Moscovo. Foi rápidamente informado que também ali apenas poderia adquirir bilhete até à fronteira com França. Lá chegado que tentasse convencer os franceses a vender-lhe o almejado bilhete.

 Em Hendaya a conversa, agora em francês, foi a mesma, que só lhe vendiam bilhete até à fronteira com a Alemanha. Ai chegado o caso seria então resolvido com os alemães. Se lhe vendessem o bilhete para Moscovo o problema seria deles.

Após todas estas peripécias o nosso figueirense lá chegou a Moscovo, onde se iria demorar vários meses. Chegando à conclusão que nem tudo era verdade, nem tudo era mentira, ficando, por isso, satisfeito com as suas próprias conclusões.

Finalmente iria regressar a Portugal, com a certeza do que vira e não do que lhe diziam. Relembrou então a enorme embrulhada que tivera para conseguir bilhete para Moscovo. E resolveu, uma vez mais, colocar o sistema soviético à prova. Se bem o pensou, assim o fez. No dia aprazado, para  viagem de retorno, ciente que a Figueira da Foz, era uma pequena cidade totalmente desconhecida para os soviéticos, decidiu pedir um bilhete de combóio com términus na cidade.

  A resposta, essa, não demorou muito a chegar, numa mistura estranha de russo e portunhol:

- Deseja via Alfarelos ou via Pampilhosa?

Pois é. O sol quando nasce assim não é para todos!

Depois de escrito: Caso não compreenda é favor consultar o mapa dos caminhos de ferro portugueses. Se nem mesmo assim conseguiu compreender a piada aconselha-se visita imediata a Moscovo. Boa viagem.

publicado por carlosfreitas às 02:20

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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