04
Nov 08

foto: João Viana (clicar permite ver como deve de ser)

Gostei da prosa, com um certo travo a neo-realismo, de Tomás Vasques. Embora reconheça que o sentido da escrita, da boa escrita, é eterno, e esta seja quase rara, estas, as palavras escritas por Tomás Vasques, por serem neo-realistas, não coincidem, no momento em que rabisco estas palavras, com a realidade portuária. Apelam à memória de uns quantos. Os que viveram imersos nela. Os portos hoje, de forma genérica, não se compadecem com as técnicas poéticas do neo-realismo. Estão muito mais voltados para um tipo de literatura com raizes no absurdo. O movimento hoje condensa-se inscrito em milhares, muitos milhões, de euros. Ambos sabemos isso, eu e o Tomás Vasques. De trabalhadores eventuais, que já não frequentam tabernas, porque agora praticantes de trial bike, por exemplo (será um aspecto de neo-realismo moderno?). O porto, onde me movimento, onde ele se movimentou, continua a ter trabalhadores que olham o futuro com pouca confiança, (assunto neo-realista) com direitos a serem constantemente alienados (motivo neo-realista) em nome de uma produtividade insana, marcado por uma regulação de trabalho enviesada em direcção única. A dos patrões (ambiente neo-realista). A actual precariedade, a inexistência de condições de salubridade e higiene, os atentados ambientais, que colocam a saúde dos que nele trabalham em risco, fazem parte do dia-a-dia dos trabalhadores portuários. Mudaram-se mentalidades, o espaços físico das instalações portuárias estão permanentemente em reconfiguração, até a socialização é agora de outro tipo. O neo-realismo esse continua apenas nas relações de trabalho. De acordo. Mas até esse "anátema" marxista continua hoje ao nível da subserviência ao capital (tirada neo-realista). Parece que sempre foi assim. A realidade portuária nacional, por conjuntura, profundamente arreigada nos grandes meios urbanos carreou, para a cidade grande, Lisboa, os campónios que mendigavam trabalho no Portugal rural do Estado Novo. Ide observar a proveniência desses trabalhadores, se quereis saber. Trabalho escravo, nessa época, se quereis saber. Estes transportaram para a grande cidade usos e costumes da ruralidade, ancestral. Hoje tudo isso faz parte da prosa neo-realista, passou, arrastadas pelo efeito da maré da transformação mental e social do país. Actualmente a liberalização do sector criou novos senhores e novos servos da gleba. Quanto aos contentores, na Rocha Conde de Óbidos, fazem-me recordar (em prosa realista) aqueles milhares de caixotes, estacionados junto da ex- FIL, nos tempos da forçada e inquestionável retornança. O espectáculo era deprimente, mas necessário. O espectáculo dos contentores é deprimente. Sem dúvida. Mas necessário. Ali ou em qualquer lugar. Só quem não acompanha a realidade portuária pode esquecer que este é um sector que está permanentemente em mudança. São organismos em contínua mutação. Indução obtida por duas décadas de experiência e por aqueles que se movimentam no seu interior. Em determinadas ocasiões estas (as mudanças) são bem conduzidas, noutras mal. Estando dependentes daqueles que nelas intervém, da sensibilidade pessoal e do conhecimento (know-wow, em liguagem absurda) da realidade portuária no particular, das implicações no meio ambiente e na urbe, meio onde interfere e interage, de forma profunda, com a vivência das populações. Se me perguntarem se é possível outra localização, respondo, que, com todas as possibilidades técnicas actuais, tal é possível e até desejável. Quando se verificar o bloqueamento das futuras(?) instalações, que fazer então? O que essa outra localização acarreta não entra nas contas da entidade promotora. Mas, esse é um outro assunto. E se eles almoçam em restaurantes caros, eu como onde me apetece. Depende dos dias,

das marés e do dinheiro disponível. Uns dias como sapato, noutro sapateira. Mas onde é que eu ouvi isto?

publicado por carlosfreitas às 11:57

Eu sei que se trata de prosa «neo-realista». Para me defender desse pecado escrevi no título obreirismo », apesar de saber que era insuficiente. O texto, escrito num ápice, a apelar a um turbilhão de memórias, não é mais que um recado, talvez tosco, para aqueles que, hoje, sem qualquer contributo no passado, para o que quer que seja, se arvoram em juízes imaculados, a partir de juízos precipitados porque são politicamente correctos». No fundo, a actividade portuária emprega 140 000 pessoas. Não se pode deitar isso pela borda fora. Nem sequer se pode dizer que o porto de Lisboa deve ir para Peniche como ouvi hoje na rádio a Henrique Neto, antigo deputado socialista. Haja compreensão para a complexidade. Não se cria riqueza a admirar as vistas, nem se devem destruir as vistas para criar riqueza. No meio, como sempre, está a virtude.
Um abraço.
Tomás Vasques a 4 de Novembro de 2008 às 15:27

Ter gostado do seu texto é sincero. E compreendi inteiramente o que pretendeu fazer passar. Não fiquei admirado com a velha pretensão das gentes de Peniche e arredores, local desde sempre reivindicativo das profundezas das suas águas propícias a um porto de mar de nível mundial, e que agora volta à carga, com o propalado snobismo e sismo de alguns, muito por via da sua proximidade da capital, motivo qb para aliciar a capital a dar-lher um pouco do seu porto e assim ajudar a preservar o tão maltratado meio-ambiente lisboeta. Nada a obstar, a não ser o custo da obra e a criação no médio prazo de um outro elefante branco do calibre de Sines - andava Marcelo Caetano a braços com a primeira crise - a sério - nos mercados petroliferos, quando o Estado português apostou na sua construcção. Embora esse elefante tenha agora mudado de cor com a aliança asiática. Prova de que um elefante branco poderá mudar de cor, tudo depende das conjunturas. Por isso Henrique Neto, não se excusava a ter uma pequena parede de contentores em Peniche desde que esse facto permitisse, quase de certeza, o desenvolvimento económico da região e seu hinterland. Mas não creio que a Mota- Engil vá na conversa das águas profundas de Peniche, o custo da obra e a sua dimensão temporal apresentam-se como os principais obstáculos à pretensão dos amigos de Peniche. Mas, a ver vamos como diz o cego.
Um abraço deste
carlosfreitas a 4 de Novembro de 2008 às 15:59

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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