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Out 08

 

 

Dizia a minha avó que "é no poupar que está o ganho". Estes ditados populares que a avó utilizava a "torto e a direito" e por "dá cá aquela palha" para além de, em plena crise me fazerem recordar a  figura daquela mulher, reavivaram algumas das suas recomendações suas acerca do dinheiro.Ao rever, nas fotos antigas, aquela figura franzina, de olhar penetrante, permanentemente vestida de negro, analfabeta, perdida na grande cidade, para onde a enorme "catrefa" de filhos a obrigara a emigrar, fugindo à dura sobrevivência campesina dos socalcos do Douro. Sobre algumas considerações considerações que lhe ouvi sobre o dinheiro retive duas ou três. Coisa de pouca monta, mas importante. A primeira foi a de que pelo dinheiro homens e mulheres se transformavam em escravos, outra foi que a sua existência permitia que os seres humanos se alimentassem, vestissem ou se divertissem de acordo com a quantidade que possuíam e, por último, afirmava ela, servia para gastar. Assim (embora mal) aprendi que servia quase só para suster necessidades demasiado básicas. Hoje sobre a nomenclatura do dinheiro sei mais algumas coisas. No entanto, e é isso que aqui me traz, a minha avó, que criara uma resma de filhos entre os anos 20 e 40 do século passado, dizia que o racionamento, imposto pelas potencias aliadas ao regime português, durante a II Grande Guerra, fora a época mais feliz (pelo menos na sua bitola) da sua vida. Havia criado e alimentado (mal, segundo os cânones actuais) os seus filhos durante uma época na qual o racionamento dos bens alimentares foi a regra vivida pela grande maioria da população portuguesa. Hoje folheei estas memórias ao mesmo tempo que folheava alguma da imprensa diária onde deparava a cada passo com múltiplos apelos e divulgação de técnicas sobre como poupar (penso que dinheiro). Perguntava-me que receitas seriam aquelas e a quem se dirigiam. Receitas de como esticar o inexistente. Imageticamente fui confrontado com aqueles ratos que fazem andar persistentemente a roda da gaiola sem nunca saírem do mesmo lugar. A imprensa, de forma genérica, deveria ter projectado estas preocupações e conselhos sobre poupança no decurso  de um hipotético tempo de "vacas gordas", embora acredite que ninguém teria ligado, seria uma atitude mais coerente. A caricatura que me sobreveio sobre esta azáfama em propalar estas supostas fórmulas mágicas de fazer render o que não existe foi aquela estafada ideia de aproveitar a crise para de qualquer forma sacar uns níqueis a incautos leitores e assim aumentar o pecúlio próprio. Entretanto passei por mais um anúncio, este bancário, que oferece empréstimos para compra de casa. Confuso? Quem? Eu, até gosto da crise. Assim, como a minha avó, eu penso que estes são tempos felizes. Confusos, mas felizes.

publicado por carlosfreitas às 21:52

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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