24
Set 08

Grão Vasco. Sacristia da Igreja de Santa Cruz de Coimbra. 1534-1535.

Cheguei à cidade por volta do ano de 1972. Não sou por isso coimbrinha, como se pode deduzir, nem de perto, nem de longe. Sou mero amador da cidade, onde realmente acabei por crescer e acabei, de certo modo por me sedentarizar, se assim posso dizer. Conheço becos, travessas, ruas (pelo nome), largos e afins, tudo de cor e salteado. Desde a Alta à Baixa, aos confins do Tovim, do Norton de Matos à Pedrulha, do Pinhal de Marrocos a Santa Apolónia. De Norte ao Sul, de Oeste a Este. Para ser preciso. Conheço-lhe parte da história,a que vem nos manuais e as outras que ainda não vem nos manuais e aquelas que nunca virão. Muitas outras. Palmilhei seca e meca por esta cidade fora. Hoje, nem tanto. Estou de costas voltadas para uma cidade que cresceu sem eira sem beira, pois a velha dama rendeu-se à inevitabilidade das velhas damas em querer ser aquilo que não é. Preferiria mil vezes que ela fosse o que é. Cidade arreigada ao passado, que não o aviltasse, às  suas memórias, que as não destrui-se. Cidade em que o futuro não cave a cada passo a solução mais vistosa, aparentemente mais faustosa, riscada pelas heresias de um presente cada vez mais patético. Tudo isto nem sequer vem a propósito das recentes inundações na baixa coimbrã. Tudo isto  tem o propósito de revelar os contadores de histórias sobre a nossa cidade, daqueles que a amam de um modo infinito e que ninguém parece gostar, sequer de ouvir ou ler. É a essa cidade povoada de memórias, construídas em torno de cada recanto, de cada rua ou beco, que ajudam a afrontar esse futuro no qual as querem encerrar ou sepultar. A cada pedra tirada do seu sítio, a cada casa demolida, a cada modernismo implantado, a cada àrvore derrubada e não substituída, a cada grade de ferro forjada trocada pelo aço polido, a cada decisão irreversível  e mal tomada, tudo seja deitado abaixo e reposto com clarividência. Apenas desejamos o desaparecimento para esses poetas do progresso ultrajante que desenham a cidade em que habitamos.

 

(X) O titulo só os coimbrinhas entendem, servindo para demonstrar bem esse futurismo e esses poetas sobre os quais escrevo. 

publicado por carlosfreitas às 15:08
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Carlos Freitas Almeida Nunes
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