07
Set 08

No entretanto enquanto milhares de compatriotas  nutrem o "circus" do sistema, uns ao norte e ainda outros pelos arredores da capital, ou esses outros em um qualquer remanso do bucólico país que é o meu. Uns e outros obrigam a vegetar nesse imenso deserto de ideias que ao longo dos últimos trinta anos plantaram nos meandros da vida política e quotidiana deste país, que é o nosso. A reflexão que me proponho resulta de recentes leituras de Giorgio Agamben. Fruto da necessidade que penso existir em redesenhar o pensamento político actual propõe-se a quem desconhece porventura a riqueza do pensamento do filósofo italiano, afastando o imenso ruído de máquinas voadoras, bifanas interditas e jotas, pensador pouco militante, embora inscrito na corrente critica do marxismo, seguidor das pisadas de Walter Benjamin, incorporando conteúdos filosóficos que se foram desenvolvendo ao longo do último século em torno das fórmulas de legitimação dos poderes singulares, tanto na forma (seguindo Michel Foucault), assim como no conteúdo, caso dos totalitarismos (seguindo Hannah Arendt). Mas, a questão, fulcral e que nos interessa realçar e trazida (embora não exclusivamente) para o debate ideológico em torno da democracia por Agamben é, a critica que produz à noção de soberania enraizada nas democracias. Da soberania do Estado e das fórmulas utilizadas na imposição da soberania estatal. Não esqueçamos a frase lapidar de Walter Benjamin, quando enuncia que " o estado de excepção tornou-se regra", que sendo forma de actuação do Estado sobre os cidadãos e técnica frequentemente (demasiadas vezes) utilizada subjuga o jogo democrático entre cidadãos e o poder. Agamben, desmistifica essa aparente satisfação que decorre da miragem propiciada pelo estabelecimento de princípios de justiça e modos de actuação que nos autoriza a pensar que o Estado age de forma justa. Este é apenas esse pano de fundo, mítico, da democracia e, repare-se, o quão dela nos encontramos desviados. Poderemos começar a sorrir quando deparamos com a atribuição de democrático a um Estado, porque realiza eleições. Princípio que começa a ser colocado em causa, dado que se intui que a mera realização de eleições não é bastante para que este seja democrático, embora esta ideia seja demasiado comum. O princípio da democracia não se estabelece nem pela frequência ou pela existência do acto eleitoral em si, este é apenas um dos muitos complementos da democracia. Os políticos sabem, e muitos reconhecem-no, quando fora do poder, que o exercício do poder corrompe. Ao corromper, corrói a democracia. Mas não é o pressuposto do exercício do poder que corrompe, é a natureza do ser que exerce o poder que se corrompe, ou deixa corromper, porventura pelo desconhecimento (ou esquecimento) de princípios básicos (éticos/morais) que ajudam a combater essa inércia que banaliza a ideia de que o seu exercício é por natureza  algo que corrompe. O regime de excepção em democracia implica reequacionar o poder exercido pelos políticos/partidos e o carácter (quase) absolutista que emerge desse exercício nas sociedades democráticas modernas.

 

Foto sacada aqui.

publicado por carlosfreitas às 16:16

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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