20
Jul 08

 

Ninguém nos veem em socorro

Ninguém nos liberta os braços

Há dois milénios que somos

os amantes soterrados

Nem o mais ínfimo agouro

na manhã daquela tarde

Mas era o último encontro

sem que ninguém o sonhasse

E soubermos ir tão longe

tão enlaçados ficámos

que em tudo vibrava o 'sboço

de uma eternidade

Mergulhados neste sono

há dois milénios ou quase

é ainda o dia de hoje

esse ontem tão recuado

Ou foi sonho o dia de ontem

e desde então acordados

nem cremos que à nossa roda

existisse uma cidade

(...)

E nesse ponto de há pouco

eternizamos ficámos

Somos assim um do outro

há dois milénios ou quase

(...)

Antes o fim que nos coube

Se é que fim pode chamar-se

a este abraço em que somos

um só astro uma só ' statua

uma só chama um só tronco

por toda a eternidade

mais livres porque um do outro

um ao outro acorrentados

Ninguém nos venha em socorro

Ninguém nos deslace os braços

 

David Mourão-Ferreira  ou "A Secreta Viagem" (excertos de "Romance de Pompeia" em Ruínas Romanas) de Helena Malheiro, Lisboa, Oficina do Livro, 2001.

publicado por carlosfreitas às 22:39

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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