28
Jun 16

dias, não são dias.

há dias a dias, não há dias sem duas

outros dias assim-assim, dias.

um dia é um dia, um de cada vez, ou não, talvez um dia

um dia a seguir ao outro

cada dia 

antes do meio-dia

ainda é dia?

Bom Dia

 

publicado por carlosfreitas às 01:43

27
Jun 16

há pouco observei, da varanda, um rapaz, mochila ás costas, pesada, que subia a rua, ingreme, olhando para o écran do telemóvel entre mãos, caminha lentamente quando, de repente, termina o que estava a fazer, colocando o aparelho no bolso das calças e olha, por entre o gradeamanto e as trepadeiras, a nesga de paisagem que caia sobre a Rua da Sofia. Em frente da varanda, do sétimo andar do prédio, onde fumo um cigarro, observo a paisagem, naquela primeira noite do verão do ano, o rapaz pára e alto, numa língua que me pareceu inglês, fala qualquer coisa na direcção da parte debaixo da rua. Não sabia da minha presença ali, nem sequer olhara para cima, talvez só assim me poderia ter vislumbrado. Tinha parado e virara-se para trás, falando alto para alguém que viria atrás de si e que eu não via ainda. Demorou um pouco a tornar-se visível quem lá vinha subindo a rua. Caminhava lentamente, surgindo ofegante pareceu-me, uma rapariga que subindo igualmente a rua, vinha atrás do rapaz.. Reparo que tráz consigo uma mochila de pequeno porte, e não tão volumosa como a dele, e dois sacos, cada um deles em sua mão. A luz dos candeeiros passou então a iluminar uma rapariga, de cabelos longos e lisos, atados na nuca, talvez alourados. O rapaz parou, dois passos depois, donde tinha falado para a parte debaixo da rua, para aquela parte que não se via da varanda e esperou que a rapariga transpusse os poucos metros que agora os separavam e chegasse até ele. Ela chega entretanto e pára junto dele, de frente, para ele. Olha-o, embora não troquem palavras entre si, visto de cima onde me encontrava, pareceu-me ver um acto carinhoso na troca de olhares entre si,  como se tudo aquilo já estive combinado antes de surgirem rua acima, um, atrás do outro. Bastou olharem-se para se entregarem a uma deliciosa troca de cargas ali mesmo. Num movimento pausado e tranquilo, como que respirando o ar quente da noite, entre si, mochilas, a dele maior e mais volumosa, a dela mais pequena e talvez não tão pesada, e  sacos, que haviam sido delicadamente pousados por ela no chão empedrado da calçada, trocaram de mãos e de costas. Findo todo aquele bailado de braços, prosseguiram caminho, o rapaz, à frente, que leva agora a mochila mais leve e um saco em cada mão e atrás dele a rapariga que agora leva apenas consigo a mochila mais pesada e volumosa ás costas, que o rapaz tinha trazido até ali. Continuaram a caminhar, depois daquela paragem, rua acima, desaparecendo na curva lá em cima.

publicado por carlosfreitas às 01:07

Mal o século começou é já os ingleses fizeram a  melhor piada do século.

publicado por carlosfreitas às 00:56

26
Mai 16

Célebre escritor das dúzias congeminou uma certeza, acabou por fundar uma nova ideologia, a zezólogia marxist.

publicado por carlosfreitas às 00:15

18
Abr 16

 

 

 

Um ar fino e puro entrava na alma,
e na alma espalhava alegria e força.
Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas


A Cidade e as Serras, cap.VIII

publicado por carlosfreitas às 23:03

CIMG2183.JPG

Foto: calmeidanunes

 

 

É sempre a pior gente que primeiro não acredita/

E sempre a pior gente que depois não deixa de acreditar

 

Joaquim Manuel Magalhães

publicado por carlosfreitas às 22:47

16
Mar 16

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

 

 

 

 

José Carlos Ary dos Santos

publicado por carlosfreitas às 01:37

Escrevia há dias que devemos começar a falar sobre o Brasil. De pensarmos, Brasil. Aportar novamente aos Brasis. A grande nação Brasileira. O povo irmão. 

publicado por carlosfreitas às 01:21

15
Mar 16

olha à tua volta,

ao redor,

dentro de ti,

Ensimesma-te

revolta Te,

que vês

na tua vez

Em vês

Bês

Uma duas três

publicado por carlosfreitas às 03:29

homemsino.JPG

O Homem que transportava o sino naquela tarde tropeçaria na pedra de uma calçada, das muitas calçadas que lhe perseguiam a solas dos sapatos. Como cola. Caminho e solas colados de muito caminharem juntos.

haveria de pousar o sino, mas antes disso acontecer percorreu com o olhar a praça que lhe pareceu deserta. Sentou-se na pedra do chão, fervia no sol da tarde. Estava quase a meio dela, ele e o sino, a única bagagem que transportava sob as costas. Era pesado - pensara a primeira vez que pegara nele há muito tempo atrás. Mas não hoje, hoje conseguira finalmente que fosse o sino a carrega-lo. Por isso vinha ele dentro do sino, quando, de sopetão, entrou praça adentro sobre a luz radiante do sol que naquela hora batia a calçada. Ofuscado, o sino, tropeçara numa pedra. Não chegaram a cair, equilibraram-se um no outro, quase de forma automática, como se homem e sino fossem um só. O homem dentro de um sino, isso sim - perguntaram todos ao mesmo tempo- e não caiu, exclamaram, nem partiu o sino. Responderia que não, bastavam que vissem. Como poderia ser lá, um homem transportado por um sino, e  o sino, pousado no chão, nem se mexia, nem pernas tinha, como poderia lá ser. E espantavam muito os olhos, arregalados, e olhavam para o homem que dizia que naquela tarde, após milhares de quilómetros durante os quais transportara o sino sobre as costas, dia após dia, ano após ano, num ano muitos anos, que já dariam três vezes a volta às suas duas mãos, como dizia, numa viagem da qual desconhecia o destino, avançava e levantava-se e seguia em frente. Todos os dias. Tinha naquele dia, precisamente, conseguido que fosse o sino a transporta-lo e que foi dentro do sino que entrara naquela tarde pela praça adentro. Que não acreditavam que tal fosse possível, Então o homem abeirou-se do sino e pegando nele, fê-lo soar como soam os sinos. Num repente, a praça, que lhe parecera deserta, enche-se de gente, que ao vê-lo tombado no chão, o sino pousado ao lado, logo acorreram. Explicou-lhes que vinha dentro do sino, quando este tropeça na calçada. Foi assim que ali chegou. Não acreditaram. Juntaram-se em magotes, nas pequenas sombras que bordejavam a calçada, junto dos edificíos em redor e pediram-lhe para que tocasse o sino. Naquela tarde o sino haveria de ecoar de tal modo que ainda hoje podemos ouvi-lo em manhãs em que o nevoeiro percorre o rasto do rio que atravessa a cidade como um respiro no frio. A estátua que ali não existe erguida em memória de um homem que entrara dentro de um sino naquela tarde, ofuscado pela luz do sol, de sopetão, na praça que, ainda vazia, se haveria de encher. Hoje estava cheia de gente quando passei. Poderia descreve-la, mas não hoje e não sei se voltarei à praça, para a conseguir descrever, por isso imagino-a.

 

 em fundo 'The Division Bell' de Ping Floyd.

 

publicado por carlosfreitas às 02:20

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Carlos Freitas Almeida Nunes
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